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Azazel: o nome que a tradução escondeu no Dia da Expiação - Yom Kippur

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Azazel: o nome que a tradução escondeu no Dia da Expiação - Yom Kippur

 

Levítico 16 é um daqueles capítulos que a gente acha que conhece. Dia da Expiação, sumo sacerdote, dois bodes, um morre, o outro vai embora levando os pecados. Bode emissário. A expressão entrou tão fundo no português que virou figura de linguagem para qualquer inocente que paga pelo erro dos outros.

Só que o hebraico não diz "bode emissário". Diz outra coisa, e essa outra coisa é um nome.

E Arão lançará sortes sobre os dois bodes: uma sorte para YHWH e uma sorte para Azazel. (Levítico 16:8)

Goral echad laYHWH, vegoral echad laAzazel. A palavra aparece quatro vezes nesse capítulo (versículos 8, 10 duas vezes, e 26) e em nenhum outro lugar da Bíblia. Se você abrir uma Almeida, vai ler "bode emissário". Se abrir a Nova Versão Internacional ou a Bíblia de Jerusalém, vai ler "Azazel". Os tradutores não estão brigando por estilo. Estão diante de uma palavra que ninguém sabe traduzir com certeza, e cada escolha carrega uma teologia inteira atrás.


Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

Quero percorrer esse capítulo devagar, separando em duas prateleiras o que o texto afirma e o que os intérpretes propõem, porque neste assunto as duas costumam vir misturadas.


O que acontecia naquele dia

Yom Kipur, ou Dia da Expiação, era o único dia do ano em que alguém entrava no Santo dos Santos. Esse alguém era o Kohen Gadol, ou sumo sacerdote, e ele não entrava com as vestes de ouro do cargo. Levítico 16:4 manda que ele se lave e vista linho: túnica, calções, cinto e turbante. O homem mais paramentado de Israel se apresentava diante de YHWH vestido como um sacerdote comum.

Primeiro vinha um novilho pelo pecado dele e da sua casa. Depois, os dois bodes, que o versículo 5 trata como uma única oferta pelo pecado. Esse detalhe passa rápido e é importante: não são dois sacrifícios, é um só, repartido em dois animais.

O bode sorteado para YHWH era morto, e o sangue era levado para dentro do véu e aspergido sobre a kaporet, ou propiciatório, a tampa da arca. O versículo 16 explica a finalidade, e ela surpreende quem espera uma cerimônia de perdão individual: o sangue faz expiação pelo santuário, por causa das impurezas dos filhos de Israel. O pecado do povo, ao longo do ano, contaminava a casa de YHWH, e a casa precisava ser limpa.

Então vinha o segundo bode.

Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

Arão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e confessará sobre ele todas as iniquidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados; ele os porá sobre a cabeça do bode e o enviará ao deserto pela mão de um homem designado. E o bode levará sobre si todas as iniquidades deles para uma terra cortada. (Levítico 16:21-22)

Um animal morre e o sangue limpa a casa. O outro vive e carrega a culpa para fora. Sangue e banimento, dentro de uma única oferta. Fica a pergunta que o versículo 8 já tinha plantado: para fora, para onde?


Uma palavra, três leituras

As propostas antigas para azazel são basicamente três.

A primeira parte a palavra em duas: ez, cabra, e azal, ir embora. O bode que parte. Foi o caminho da Septuaginta, que traduziu por apopompaios, "o que é enviado para longe", e depois da Vulgata, com caper emissarius. O nosso "bode emissário" é neto direto desse latim.

A segunda entende Azazel como um lugar, ou um tipo de lugar. O Talmude (Yoma 67b) registra essa opinião: azazel seria um terreno duro e escarpado, o penhasco para onde o animal era levado.

A terceira entende Azazel como um nome próprio. E o mesmo trecho do Talmude a preserva, na boca da escola de Rabi Ishmael: o bode se chama assim porque expia "o caso de Uza e Azael", dois anjos caídos da tradição judaica.


O que o próprio texto sugere

Aqui estou na prateleira do texto, e há dois argumentos que me parecem difíceis de contornar.

O primeiro é o paralelismo do versículo 8. "Para YHWH" e "para Azazel" têm exatamente a mesma construção, a mesma preposição, e estão lado a lado na mesma frase. YHWH é nome próprio. A simetria pede que o outro termo seja da mesma natureza.

O segundo é o versículo 26, que fala do homem "que soltou o bode para Azazel". Se azazel significa "o bode que parte", a frase fica: o homem que soltou o bode para o bode que parte. Não funciona. A frase só faz sentido se Azazel for o destino, não o animal. O versículo 10 aponta na mesma direção, porque diz que o bode é enviado "a Azazel, ao deserto", como quem dá destinatário e endereço.

Isso não prova que Azazel seja um ser. Um destino pode ser um lugar. Mas já derruba a primeira leitura, a mais popular, e deixa a disputa entre as outras duas.


O Azazel de Enoque

Para saber como os judeus dos séculos antes de Yeshua ouviam esse nome, a melhor janela é Primeiro Enoque. O livro, atribuído a Chanoch, ou Enoque, foi composto por partes entre os séculos III e I a.C. Não é Escritura, a não ser para a Igreja Ortodoxa Etíope. Mas circulava em toda parte, apareceu em várias cópias entre os manuscritos do mar Morto, e a carta de Yehudá, ou Judas, o cita nominalmente (Judas 14-15). Serve como testemunha de época.


Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

A primeira seção, o Livro dos Vigilantes, expande Gênesis 6:1-4. Duzentos seres celestiais descem sobre o monte Hermom, tomam mulheres e geram os gigantes. Já tratei desse pano de fundo nos artigos sobre os Nefilim e sobre os benei Elohim, e sobre o Hermom no artigo de Mateus 16. O que interessa agora é um dos líderes do grupo. No capítulo 8, ele ensina os homens a fazer espadas, escudos e couraças, e ensina também os enfeites, a pintura dos olhos, as pedras preciosas. Guerra e sedução. O capítulo 10 traz a sentença:

Amarra Azazel de mãos e pés e lança-o na escuridão; abre o deserto que está em Dudael e lança-o ali. Põe sobre ele pedras ásperas e pontiagudas, cobre-o de trevas, e que ele permaneça ali para sempre [...] e no dia do grande juízo será lançado no fogo. [...] Toda a terra foi corrompida pelas obras ensinadas por Azazel: a ele atribui todo o pecado. (1 Enoque 10:4-8)

Ponha ao lado de Levítico 16. Lá, os pecados são colocados sobre um bode enviado a Azazel, no deserto, para uma eretz gezerah, terra cortada, recortada, escarpada. Aqui, Azazel está preso no deserto, debaixo de pedras escarpadas, e todo o pecado é lançado na conta dele. A Mishná ainda dá o nome do local para onde o bode era conduzido, Bet Hadudo (Yoma 6:8), e estudiosos como Geiger e Charles propuseram que o Dudael de Enoque seja eco desse nome. É proposta, não consenso.

Agora o freio, porque essa conexão costuma ser apresentada mais redonda do que é. Nos fragmentos aramaicos de Enoque encontrados em Qumran, que são a forma mais antiga do livro, o nome desse vigilante é Asael, com grafia diferente do Azazel de Levítico. A fusão dos dois nomes aparece nas versões grega e etíope, em textos de Qumran como 4Q180, e de forma muito desenvolvida no Apocalipse de Abraão, onde Azazel é o grande adversário. O mais provável é que o autor de 1 Enoque 10 estivesse lendo Levítico 16 e moldando a prisão do anjo caído sobre o ritual do bode, e não o contrário.

O que se pode afirmar com segurança é mais modesto e, para mim, suficiente: no período do Segundo Templo, uma parte considerável do judaísmo ouvia "Azazel" em Levítico 16 e pensava em um ser rebelde, preso no deserto, aguardando o juízo.


Não era uma oferta

A objeção aparece na hora. Se Azazel é um demônio, Israel lhe mandava um bode no dia mais santo do ano?

O próprio Levítico responde, e responde no capítulo seguinte. Em 17:7, YHWH proíbe que Israel continue sacrificando aos se'irim, literalmente "os peludos", seres em forma de bode que o povo cultuava no deserto. A Torá conhece o culto a demônios caprinos e o condena uma página depois de descrever o bode de Azazel. Não faria sentido se o ritual fosse a mesma coisa.

E não é. Veja o que falta ao segundo bode: altar, abate, sangue, fogo, gordura queimada, tudo aquilo que em Levítico define uma oferta. Nada é dado a Azazel. Jacob Milgrom, no seu comentário a Levítico, leu o ritual assim: Azazel é de fato o nome de um demônio, mas um demônio esvaziado, sem personalidade e sem poder dentro do rito, reduzido a endereço para onde se despacha a impureza. O bode não é presente. É transporte.

Eu resumiria desta forma. O santuário é o lugar da presença, e o pecado não pode permanecer ali. O deserto, na geografia simbólica da Bíblia, é o território do caos, das ruínas, dos animais impuros e dos se'irim (Isaías 13:21; 34:14). O pecado é devolvido ao lugar a que pertence. E quem confessa é Israel. A culpa é de Israel. "A ele atribui todo o pecado" é frase de Enoque, não da Torá, e o ritual de Levítico não dá a ninguém a desculpa de que foi Azazel quem fez.


O penhasco e o fio escarlate

Levítico diz que o bode é solto no deserto e para aí. A Mishná, que por volta do ano 200 d.C. registrou como o rito era praticado no Segundo Templo, conta mais.

Os dois bodes deviam ser iguais em aparência, tamanho e preço (Yoma 6:1). Na cabeça do bode de Azazel amarrava-se uma tira de lã escarlate (4:2). O homem designado o conduzia por cerca de doze quilômetros, com paradas onde lhe ofereciam água e comida, até um penhasco. Ali dividia a lã em duas, prendia metade na rocha e metade entre os chifres do animal, e o empurrava de costas. "Não chegava à metade da encosta sem estar feito em pedaços" (6:6).


Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

Ou seja, na prática do Segundo Templo os dois bodes morriam. Um dentro, diante de YHWH. O outro fora, no lugar de Azazel. O texto bíblico não pede isso, e a Mishná não explica por que se fazia assim. Registro como dado da tradição, não como exegese de Levítico.

A lã escarlate tinha ainda outra função. Segundo Yoma 6:8, quando o bode chegava ao deserto a tira ficava branca, em alusão a Isaías 1:18: "ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve". O hebraico desse versículo usa tola, a mesma palavra do verme escarlate de que já falei em outro artigo. E o Talmude guarda, em Yoma 39b, uma memória desconfortável: nos quarenta anos anteriores à destruição do Templo, a tira deixou de embranquecer.

O Templo caiu em 70 d.C. Quarenta anos antes é por volta do ano 30.

Preciso ser claro sobre o peso disso. É uma tradição rabínica, compilada séculos depois dos fatos, por sábios que não tinham interesse nenhum em favorecer os seguidores de Yeshua, e que atribuíam o fenômeno à decadência moral da geração. Não se prova nada com ela. Mas eu acho notável que a memória judaica tenha guardado, por conta própria, que naquela altura alguma coisa mudou no Yom Kipur.


Dois bodes, um só

Volto ao vocabulário. Em Levítico 16:22, o bode "levará sobre si" (nasa) as iniquidades para uma terra "cortada" (gezerah). Em Isaías 53, o servo "levou sobre si (nasa) o pecado de muitos" (v. 12) e "foi cortado (nigzar) da terra dos viventes" (v. 8). O mesmo verbo e a mesma raiz. Isaías descreve um homem com as palavras do bode.

Os primeiros seguidores de Yeshua perceberam. A Epístola de Barnabé, escrita entre o fim do século I e o começo do II, faz a comparação abertamente no capítulo 7: o bode enviado para fora, com a lã escarlate na cabeça, cuspido e ferido, é figura do Messias. Já a carta aos Hebreus trabalha o outro animal. O capítulo 9 descreve o Messias entrando no santuário verdadeiro com o próprio sangue, uma vez por todas. E 13:11-12 lembra que os corpos dos animais cujo sangue entrava no santuário eram queimados fora do acampamento, "por isso também Yeshua sofreu fora da porta". Esse trecho se refere ao bode de YHWH e ao novilho (Levítico 16:27), não ao bode de Azazel, como às vezes se diz. Cada fonte cuida de um dos dois.


Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

E aí a pergunta que o versículo 5 deixou no ar encontra resposta. Por que uma única oferta precisa de dois animais? Porque nenhum animal consegue cumprir as duas partes. Um bode morto não carrega nada para lugar nenhum. Um bode vivo não derrama sangue diante de YHWH. Para que um só fizesse as duas coisas, teria de morrer e continuar vivo.

Esta é a minha leitura, e ela está na prateleira da interpretação: Yeshua é os dois bodes. O sangue dele entrou além do véu. E o pecado posto sobre ele foi levado para fora, para o lugar da morte, para o território do adversário. Com uma diferença em relação ao rito. O bode de Azazel nunca voltava. Yeshua voltou ao terceiro dia, e Shaul, ou Paulo, descreve o resultado em Colossenses 2:15: despojou os principados e as potestades e os expôs publicamente, triunfando sobre eles.


O que muda na leitura

Pouca coisa, se a pergunta for sobre doutrina. Muita, se a pergunta for sobre como o texto era ouvido.

Ler "para Azazel" em vez de "bode emissário" devolve ao Yom Kipur uma dimensão que a tradução apagou. O dia não tratava apenas de culpa individual perdoada. Tratava de uma casa a ser limpa e de um mal a ser expulso para o lugar de onde veio. Tratava de território. E quando a B'rit Hadashá, ou Novo Testamento, diz que o Messias levou sobre si o nosso pecado, os primeiros leitores sabiam para onde um carregador de pecados era mandado, e entendiam o tamanho da notícia de que este tinha voltado.

Da próxima vez que Levítico 16 passar diante de você, repare na nota de rodapé do versículo 8. É provável que o nome esteja lá, em letra miúda, esperando.

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