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O faraó que o Egito chamou de criminoso: Akhenaton, Moisés e a origem do monoteísmo

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O faraó que o Egito chamou de criminoso: Akhenaton, Moisés e a origem do monoteísmo

 

Ele fechou os templos dos deuses, mudou o nome, construiu uma capital do zero e mandou adorar um só deus. Quando morreu, o Egito apagou seu nome das listas reais e passou a chamá-lo de "o criminoso". E há mais de um século alguns dizem que Moisés aprendeu o monoteísmo com ele. A cronologia bíblica diz o contrário.

A lista de reis gravada por Seti I no templo de Abidos salta de Amenhotep III direto para Horemheb. Quatro faraós somem do meio: Akhenaton, Smenkhkare, Tutankhamon e Ay. Para o Egito oficial da décima nona dinastia, aqueles anos não aconteceram. Quando os escribas precisavam mencionar o primeiro deles, escreviam "o criminoso de Akhetaten". O nome não era pronunciado.

Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)


Ele nasceu Amenhotep IV, filho de Amenhotep III, o faraó da inscrição de Soleb que menciona os Shasu de Yhw. Por volta do quinto ano de reinado, mudou o nome para Akhenaton, "aquele que é útil a Aton", e transferiu a corte para uma cidade construída do nada no deserto, Akhetaten, hoje Amarna. Fechou os templos de Amon, confiscou a renda do clero, mandou raspar o nome de Amon dos monumentos, inclusive do nome do próprio pai. E ordenou que o Egito adorasse um só deus: Aton, o disco solar, representado com raios que terminam em mãos.

Durou cerca de dezessete anos. Depois da morte dele, o menino Tutankhaton virou Tutankhamon, a corte voltou a Tebas, os templos reabriram. Horemheb desmontou Amarna pedra por pedra e usou os blocos como enchimento nas próprias construções. O rosto de Akhenaton foi cinzelado das paredes, as estátuas quebradas, o sarcófago destruído. Foi uma das operações de apagamento mais completas da história antiga.


O que ele realmente acreditava

Costuma-se chamar Akhenaton de primeiro monoteísta. A palavra precisa de cuidado. O culto de Aton era exclusivista: nenhum outro deus podia ser adorado. Mas Aton era o sol visível, não um Deus fora da criação. E o único acesso a ele era o próprio Akhenaton: o povo adorava o rei, e o rei adorava Aton. Não havia Torá, aliança, moral revelada, ou promessa a um povo. Os egiptólogos falam em henoteísmo ou monolatria, e alguns simplesmente em culto solar radicalizado. O que ele fez foi eliminar concorrência, não descobrir YHWH.

Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)


A tese de que Moisés aprendeu com ele

Em 1939, Sigmund Freud publicou Moisés e o monoteísmo, propondo que Moisés era um sacerdote egípcio de Aton que, após a queda de Akhenaton, levou a fé do disco solar para os hebreus. A ideia teve vida longa fora da academia, e ainda aparece em documentários e vídeos. Dentro da egiptologia e dos estudos bíblicos, ela não se sustenta, por três razões que qualquer leitor pode conferir.

A primeira é o conteúdo. A fé de Israel se define por uma aliança com um Deus invisível, que não pode ser representado, que fala e exige justiça. Aton era representado em toda parte, não falava, e não tinha lei. As duas coisas se parecem apenas na contagem: um.

A segunda é a estrutura. No atonismo, o rei é o único mediador e é adorado. Na Torá, Moisés é proibido de ser adorado, morre fora da terra, e o túmulo dele é desconhecido de propósito. É difícil imaginar um herdeiro de Akhenaton fundando uma religião que nega exatamente o que Akhenaton era.

A terceira é a cronologia, e aqui a coluna que este canal adota faz diferença. Na cronologia alta, com o Êxodo em 1446 a.C., Moisés já está morto e Israel já está em Canaã quando Akhenaton nasce. Ele reina por volta de 1353 a 1336. A distância é de um século. Se houve influência, ela não pode ter ido do faraó para o profeta.


O Hino a Aton e o Salmo 104

O argumento mais sério a favor de alguma ligação não é Freud. É um texto. O Grande Hino a Aton, gravado na tumba de Ay em Amarna, tem trechos que soam como o Salmo 104: o sol se põe e a terra fica escura, os leões saem das tocas; o sol nasce e os homens vão ao trabalho; os navios sobem e descem o rio; os peixes saltam diante do criador. A sequência de imagens é próxima demais para ser coincidência total, e os estudiosos discutem isso há um século.


Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

Tu pões as trevas, e faz-se noite, na qual todos os animais da selva saem. Os leõezinhos rugem pela presa e buscam de Deus o seu sustento. Nasce o sol, e logo se recolhem e se deitam nos seus covis. Então sai o homem para o seu trabalho, e para o seu labor até à tarde. (Salmo 104:20-23)

Três leituras estão na mesa. A primeira é influência direta: o salmista conhecia o hino, talvez por meio da corte de Salomão, que tinha ligações egípcias. A segunda é tradição comum: os dois textos bebem de um repertório de poesia solar do Oriente Próximo, e as imagens eram lugar-comum. A terceira, mais rara, inverte a direção. Nenhuma das três exige que a fé de Israel tenha vindo do Egito. O Salmo 104 usa as imagens do sol, mas as aplica a um Deus que fez o sol, e nisso o hino de Amarna nunca chegaria.


Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)


As cartas de Amarna e os Habiru

Há um segundo ponto de contato, e este é sólido. Em 1887, uma camponesa encontrou em Amarna centenas de tábuas de argila com a correspondência diplomática de Amenhotep III e Akhenaton. Várias vêm de governantes cananeus vassalos do Egito, e muitas pedem socorro contra um grupo chamado Habiru, ou Apiru, que atacava cidades e tomava territórios. Abdi-Heba, governador de Jerusalém, escreve que as terras do rei estão se perdendo para os Habiru e implora por tropas.

Na cronologia alta, a entrada de Israel em Canaã cai por volta de 1406 a.C., e o período dos juízes se estende pelos reinados de Amenhotep III e Akhenaton. Ou seja, as cartas de Amarna descrevem Canaã exatamente no século em que a Bíblia coloca a conquista e o assentamento. A tentação de ler Habiru como hebreus é grande.

Aqui é preciso frear. O termo Habiru aparece em textos de toda a região, do século vinte ao século doze antes de Cristo, e designa uma classe social de gente sem lugar, mercenários, refugiados, bandos, não um povo. A maioria dos assiriólogos rejeita a equação simples Habiru = hebreus. O que se pode dizer com honestidade é menos e ainda assim relevante: no século em que a Bíblia coloca Israel entrando em Canaã, os governantes das cidades cananeias escreviam ao faraó pedindo ajuda contra bandos que tomavam a terra, e o faraó, ocupado com a própria revolução religiosa, não respondeu. Se Israel estava lá, o Egito não estava.


O apagamento e o que ele ensina

Voltamos ao começo. O Egito apagou Akhenaton porque ele ameaçou a ordem que sustentava o país: os deuses, o clero, a continuidade. E, no entanto, o apagamento falhou. Amarna foi escavada, as cartas foram lidas, o hino foi traduzido, e hoje ele é um dos faraós mais conhecidos do mundo.

Para o leitor da Escritura, a lição está na diferença. Akhenaton tentou impor um deus de cima para baixo, pelo poder do rei, e a fé dele durou o tempo do rei. A fé de Israel foi entregue a escravos no deserto, sem templo, sem capital e sem faraó, e sobreviveu à destruição de dois templos e a dois mil anos de exílio. Não é o número de deuses que separa as duas coisas. É quem fala, e para quem.


Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

Passagens tratadas: Salmo 104; Êxodo 20:1-6; Deuteronômio 34:5-6; 1 Reis 6:1; Juízes 1 e 2.

Fontes: Lista real de Abidos (templo de Seti I); Grande Hino a Aton (tumba de Ay, Amarna); cartas de Amarna, EA 286-290 (Abdi-Heba); Sigmund Freud, Moisés e o monoteísmo (1939); Jan Assmann, Moses the Egyptian (1997); Donald Redford, Akhenaten: The Heretic King (1984). As datas de Akhenaton seguem a cronologia padrão; as datas bíblicas seguem a cronologia alta adotada pelo canal.

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