Um homem sem sangue real que chegou ao topo do Egito, construiu um dos templos mais belos do mundo antigo, e depois teve o rosto arrancado de cada parede onde aparecia. A pergunta que alguns pesquisadores fazem é incômoda: e se o nome hebraico dele fosse Moshé?
Em Deir el-Bahari, na margem oeste do Nilo, há um templo em terraços encostado no paredão de calcário que parece ter sido desenhado ontem. É o templo funerário de Hatshepsut, a mulher que governou o Egito como faraó. E em vários pontos dele, escondidos atrás de portas e em nichos que o visitante comum não veria, há pequenas figuras de um homem ajoelhado. Muitas foram cinzeladas até sumir. Algumas escaparam. O homem se chamava Senenmut.
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| Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification) |
A história dele é estranha demais para caber no molde egípcio. Filho de pais sem título, Ramose e Hatnofer, cujos corpos foram encontrados em 1936 numa tumba modesta, Senenmut acumulou mais de noventa títulos ao longo da vida. Mordomo de Amon, supervisor dos tesouros reais, arquiteto do templo de Deir el-Bahari, e o cargo que mais chama atenção: tutor de Neferure, a filha única de Hatshepsut. Ele aparece em estátuas segurando a princesa no colo, algo sem paralelo para um plebeu.
E então, por volta do ano dezesseis do reinado de Hatshepsut, ele desaparece dos registros. Não há data de morte. Não há relato de funeral. A tumba monumental que ele mandou construir perto do templo, com um teto astronômico que é um dos mais antigos mapas do céu que conhecemos, ficou inacabada. O sarcófago de quartzito nunca foi usado. E em algum momento, alguém saiu com cinzel na mão para apagar o rosto e o nome dele de cada monumento.
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| Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification) |
O que se sabe com segurança
Antes de qualquer hipótese, convém separar o que a egiptologia afirma do que os intérpretes propõem. Sobre Senenmut, o consenso é este: existiu, subiu de origem humilde a uma posição sem precedentes, teve relação próxima e possivelmente pessoal com Hatshepsut, sumiu dos registros antes do fim do reinado dela, e teve os monumentos atacados. Quem atacou, e quando, é debate aberto. Durante muito tempo se atribuiu tudo a Tutmés III, que mais tarde promoveu uma campanha para apagar a própria Hatshepsut das listas reais. Mas vários egiptólogos observam que a destruição das imagens de Senenmut parece ter começado antes, e com padrão diferente. Alguém quis apagar aquele homem em particular.
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| Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification) |
O que a Bíblia diz sobre os primeiros quarenta anos de Moisés
Êxodo 2 conta que uma filha do faraó encontrou um bebê hebreu no Nilo e o criou como filho. O texto não dá o nome dela. Atos 7:22 acrescenta que Moshé, ou Moisés, foi instruído em toda a sabedoria dos egípcios e era poderoso em palavras e obras. Êxodo 2:11-15 diz que, já adulto, ele matou um egípcio que espancava um hebreu, soube que o caso tinha vazado, e fugiu para Midiã. Atos 7:23 fixa a idade: quarenta anos.
A cronologia bíblica alta, que este canal adota, parte de 1 Reis 6:1: o Êxodo aconteceu quatrocentos e oitenta anos antes do início do Templo de Salomão, em 967 a.C. Isso coloca o Êxodo em 1446, o nascimento de Moisés em torno de 1526, e a fuga para Midiã em torno de 1486. Na mesma cronologia alta, Hatshepsut reina de aproximadamente 1504 a 1484. O ano dezesseis dela cai em torno de 1488.
É esse encaixe que fez alguns pesquisadores, entre eles Scott Alan Roberts e John Ward, e mais recentemente artigos do Armstrong Institute of Biblical Archaeology, olharem para Senenmut com outros olhos. Um homem de origem obscura, criado dentro do palácio, instruído em toda a sabedoria egípcia, poderoso em obras, próximo da mulher que era filha de faraó, e que some do registro exatamente na janela em que a Bíblia coloca a fuga de Moisés. E que depois é apagado com um ódio que ultrapassa o protocolo.
As coincidências que sustentam a hipótese
A primeira é a origem. Senenmut não tinha sangue real nem família de peso. No Egito da décima oitava dinastia, isso torna a ascensão dele quase inexplicável, a menos que alguém dentro do palácio o tenha adotado como seu. A Bíblia diz exatamente isso de Moisés.
A segunda é a formação. Atos 7:22 descreve um homem versado na sabedoria egípcia e poderoso em obras. Senenmut foi arquiteto, astrônomo o suficiente para mandar pintar um mapa celeste no teto da própria tumba, e administrador dos maiores tesouros do país.
A terceira é a proximidade com uma filha de faraó. Hatshepsut era filha de Tutmés I. Senenmut é o cortesão mais próximo dela em todo o reinado, a ponto de aparecer em posição que nenhum outro funcionário ocupou.
A quarta é o desaparecimento sem morte registrada. Um homem daquela posição teria funeral documentado e tumba ocupada. Senenmut não tem nenhum dos dois.
A quinta é o apagamento. A Bíblia diz que Moisés matou um egípcio e fugiu quando o faraó soube. Um cortesão que comete homicídio e foge do país é, na lógica egípcia, alguém cuja memória precisa ser destruída: sem nome e sem rosto, não há vida após a morte.
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| Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification) |
As objeções que a hipótese precisa enfrentar
Aqui é onde a honestidade separa investigação de propaganda, e o leitor merece as objeções na mesa.
Os pais de Senenmut têm nomes e corpos. Ramose e Hatnofer foram enterrados como egípcios comuns, e ele mesmo os honrou como pais. Se Moisés sabia que era hebreu, criado por uma princesa, por que reconheceria dois plebeus egípcios como pais? Os defensores respondem que Ramose e Hatnofer podem ter sido pais adotivos ou de criação, a família que o recebeu antes de entrar na corte. É uma resposta possível, mas não é evidência.
A tumba. Senenmut mandou construir uma tumba para si segundo o rito egípcio, com sarcófago e capítulos do Livro dos Mortos. Um homem que se entendia hebreu e servo de YHWH faria isso? Os defensores dizem que, aos quarenta anos, antes do encontro na sarça, Moisés era um egípcio de formação e comportamento. O texto bíblico permite isso, mas não o afirma.
A cronologia. Toda a hipótese depende da cronologia alta. Na cronologia baixa, que é a majoritária na academia, Hatshepsut reina de 1479 a 1458 e o Êxodo, se aconteceu, é colocado por muitos no século treze. Nessa coluna, Senenmut e Moisés nem se cruzam. O leitor precisa saber que a escolha da coluna decide o resultado.
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| Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification) |
O silêncio. Não há uma única inscrição que ligue Senenmut a hebreus, a Midiã, ou a qualquer coisa fora do Egito. O argumento inteiro é de encaixe, não de prova direta. E um encaixe elegante não deixa de ser um encaixe.
O que fica de pé
Mesmo quem rejeita a identificação com Moisés fica com um fato que não vai embora: o Egito produziu, no reinado de Hatshepsut, um homem de origem humilde que subiu ao topo, foi criado junto de uma filha de faraó, dominou a sabedoria do país, e foi apagado com fúria. Isso não prova que ele era Moisés. Mas mostra que o perfil de Moisés descrito em Êxodo 2 e Atos 7 não é um perfil impossível no Egito daquela época. É um perfil que aconteceu, pelo menos uma vez, com nome e rosto documentados.
Nós lemos Senenmut do mesmo jeito que lemos qualquer hipótese: o que o texto bíblico afirma fica numa prateleira, o que os pesquisadores propõem fica em outra. O texto afirma que uma filha do faraó criou um hebreu como filho, que ele se tornou poderoso em obras, que matou um egípcio e fugiu aos quarenta anos. Os pesquisadores propõem um nome egípcio para esse homem. Você olha para as duas prateleiras e decide.
O que não dá para negar é que alguém, um dia, saiu com um cinzel para apagar aquele rosto. E que, se a hipótese estiver certa, o rosto que tentaram apagar do Egito é o mesmo que a Escritura guardou por três mil anos.
Passagens tratadas: Êxodo 2:1-15; Atos 7:22-23; 1 Reis 6:1; Hebreus 11:24-27.
Fontes: Peter Dorman, The Monuments of Senenmut (1988); Herbert Winlock, escavações de 1936 (tumba de Ramose e Hatnofer); Scott Alan Roberts e John Richard Ward, The Exodus Reality (2014); Armstrong Institute of Biblical Archaeology, artigos sobre Senenmut e o Êxodo. A identificação Senenmut = Moisés é hipótese minoritária, não consenso egiptológico.





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