Existe uma festa bíblica que os profetas empurraram para o futuro. Não é a Páscoa, que olha para a saída do Egito. Não é Shavuot, ou Pentecostes. Quando Zekharyah, ou Zacarias, descreve o dia em que YHWH reinará sobre toda a terra, a festa que as nações sobem a Jerusalém para celebrar é Sukot, ou Festa dos Tabernáculos.
Todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém subirão, ano após ano, para adorar o Rei, YHWH dos Exércitos, e para celebrar a Festa dos Tabernáculos. (Zacarias 14:16)
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Cabanas, colheita e deserto
A instrução básica está em Levítico 23:33-43. No dia 15 do sétimo mês, Tishri, Israel celebra uma festa de sete dias, seguida de um oitavo dia de assembleia solene. Durante a semana, todo israelita mora numa suká, ou cabana. O motivo vem no próprio texto: para que as gerações saibam que YHWH fez Israel morar em cabanas quando o tirou do Egito (23:43). O versículo 40 manda ainda tomar frutos de árvore formosa, folhas de palmeira, ramos de árvores frondosas e salgueiros do ribeiro, e se alegrar diante de YHWH por sete dias.
A festa tem duas faces. Êxodo 23:16 a chama de chag ha'asif, ou Festa da Colheita, porque fechava o ano agrícola. E ela lembra os quarenta anos no deserto. Cai cinco dias depois de Yom Kipur, o dia mais solene do calendário, de que tratei no artigo sobre Azazel. O povo saía do jejum direto para a semana mais alegre do ano.
Era tão central que alguns textos nem dizem o nome. Em 1 Reis 8, Shlomó, ou Salomão, dedica o Templo durante hechag, "a Festa", e ninguém precisava perguntar qual. Ezequiel 45:25 usa o mesmo artigo definido.
Um parêntese sobre o nome em português, porque ele vai importar lá na frente. "Tabernáculos" confunde, já que tabernáculo em nossas Bíblias costuma traduzir mishkan, a tenda sagrada da presença no deserto. A festa não fala do mishkan. Fala das cabanas do povo. Só que a Septuaginta, a tradução grega feita antes de Yeshua, usa a mesma palavra, skēnē, para as duas coisas. Chama a festa de "festa das tendas" e chama o mishkan de "a tenda". Os autores da B'rit Hadashá, ou Novo Testamento, liam essa Bíblia grega, e vão aproveitar a coincidência.
A conta de Números 29
Números 29:12-38 lista as ofertas de cada dia da festa, e a lista tem um padrão. No primeiro dia, 13 novilhos. No segundo, 12. No terceiro, 11. A conta cai um por dia até o sétimo, com 7. Somando: 70. No oitavo dia, um só novilho (29:36).
Para ter ideia da escala, Pessach e Shavuot pedem dois novilhos por dia (Números 28:19, 28:27). Nenhuma outra festa chega perto. Até aqui estou na prateleira do texto: o número está lá, e é deliberado, porque ninguém chega a 70 por acaso com uma sequência decrescente tão arrumada.
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Setenta é o número das nações
Gênesis 10, a Tabela das Nações, lista os povos que descendem de Noach, ou Noé. No texto hebraico, são 70 nomes; na Septuaginta, 72. É por isso que os manuscritos de Lucas 10:1 oscilam entre 70 e 72 discípulos enviados. O número passou a funcionar como "o mundo inteiro".
Deuteronômio 32:8-9 conta o que aconteceu depois de Babel. Quando o Altíssimo repartiu a herança entre as nações, fixou as fronteiras dos povos segundo o número dos benei Elohim, ou filhos de Deus, e ficou com Israel como porção própria. Aqui é preciso honestidade textual: o texto massorético, que está por trás da maioria das nossas Bíblias, diz "filhos de Israel". Um manuscrito de Qumran, o 4QDeutj, diz "filhos de Deus", e a Septuaginta vai na mesma direção. Heiser defendeu a leitura de Qumran a vida toda, e já expliquei o porquê no artigo sobre os benei Elohim e o conselho divino.
Nessa leitura, que Heiser chamava de cosmovisão de Deuteronômio 32, as nações foram entregues a seres celestiais subordinados, e Israel ficou com YHWH. Esses seres se corromperam. O Salmo 82 mostra Deus julgando-os no meio do conselho, e Deuteronômio 32:17 acusa Israel de sacrificar a shedim, demônios, deuses que não conhecia.
Setenta novilhos. Setenta nações. A pergunta se impõe.
Três explicações para os setenta
A tradição judaica notou a coincidência cedo. No Talmude, em Sukká 55b, Rabi Eleazar pergunta a que correspondem os setenta novilhos e responde que correspondem às setenta nações.
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Jacob Milgrom, no comentário a Números, foi por outro caminho, apoiado num midrash, ou comentário rabínico, de Números Rabá. Ali, os setenta novilhos são expiação oferecida por Israel em favor das nações, e o midrash até põe na boca de Israel a queixa de que as nações deveriam amá-lo por isso e, em vez disso, o odeiam.
Heiser recusa as duas. A objeção dele é a mais simples possível e, a meu ver, a mais forte: Números 29 não diz que os novilhos são oferecidos às nações, nem aos seus deuses, nem em favor delas. Nenhum texto diz. As duas leituras importam o destinatário de fora.
Uma festa de vitória
Em vez de perguntar para quem eram os novilhos, Heiser pergunta o que a festa comemora. E lembra que o lado histórico de Sukot, o deserto, costuma ser engolido pelo lado agrícola.
Na cosmovisão de Deuteronômio 32, todo território fora da herança de YHWH está sob outro domínio. O deserto é o caso extremo: caos, morte, lugar de ruínas e de seres hostis. É para lá que vai o bode de Azazel no Yom Kipur, levando o pecado de volta ao território a que pertence. Durante quarenta anos, Israel atravessou esse território. O único chão santo era o acampamento, com a presença no centro. Em volta, inimigos visíveis e invisíveis, e YHWH sustentando o povo dia após dia.
Sukot celebra o fim dessa travessia. É a festa do livramento. E daí vem o argumento central de Heiser, que eu parafraseio: um povo que acabou de ser livrado não oferece sacrifícios aos poderes de que foi livrado. Ninguém aplaca um inimigo derrotado. Os setenta novilhos comemoram a vitória de YHWH sobre a totalidade dos deuses hostis a Israel. Setenta, porque é o número de "todos". Gratidão, não negociação.
Há um detalhe curioso: a pista veio do próprio Milgrom. Depois de ligar os setenta às nações, Milgrom comenta que não admira que Zacarias tenha profetizado Sukot como festa universal. Heiser pega esse fio e o puxa até o fim.
Agora a prateleira da interpretação, com franqueza. O texto também não diz que os setenta significam vitória sobre os deuses das nações. A leitura de Heiser é uma inferência, como as outras. A diferença é que ela parte do sentido que a própria Torá dá à festa (Levítico 23:43) e não de um paralelo sírio ou de um midrash tardio. Por isso ela me convence mais. E, como veremos, é a única das três que torna Zacarias 14 coerente.
O Verbo que armou tenda
Volto ao parêntese do nome. Yochanan, ou João, abre o evangelho dizendo que o Verbo se fez carne e habitou entre nós (1:14). O verbo grego é eskēnōsen, da família de skēnē. Literalmente: armou a sua tenda entre nós. Na sequência, João fala de glória, e glória na Torá é o que enche o mishkan (Êxodo 40:34). A presença que morava na tenda sagrada agora mora em carne, no meio do povo.
Isso está no texto. Se João tinha Sukot em mente especificamente, ou só o mishkan, é debate. Mas a palavra grega abraça as duas coisas, e ele sabia disso.
Água e luz no último dia da festa
João 7 põe Yeshua em Jerusalém durante Sukot. No último dia, "o grande dia da festa", ele se levanta e clama: se alguém tem sede, venha a mim e beba; de quem crê em mim, como diz a Escritura, correrão rios de água viva. E João explica que ele falava de Ruach HaKodesh, ou Espírito Santo (7:37-39). Qual era esse último dia, o sétimo ou o oitavo, é discutido entre os comentaristas.
A Mishná, compilada por volta do ano 200 a partir da memória do Segundo Templo, ajuda a ouvir a cena como os presentes a ouviram. Em Sukká 4:9, cada manhã da festa um sacerdote descia ao tanque de Shiloach, ou Siloé, enchia um jarro de ouro e derramava a água sobre o altar. Em Sukká 5:2-4, à noite, candelabros enormes eram acesos no pátio das mulheres, e o texto diz que não havia pátio em Jerusalém que não fosse iluminado por aquela luz. Havia dança com tochas a noite toda. A mesma seção guarda o ditado de que quem não viu a alegria da tiragem da água nunca viu alegria na vida.
No capítulo seguinte, ainda no Templo, Yeshua diz: eu sou a luz do mundo (8:12). E João 8:20 informa que ele disse isso junto ao tesouro, que ficava justamente no pátio das mulheres, onde estavam os candelabros. Essa ligação é observação de muitos intérpretes, não é de Heiser, e depende de uma fonte compilada depois do Novo Testamento. Fica na segunda prateleira. Mas é difícil não ver.
E há mais. Zacarias 14, o capítulo que termina com as nações em Sukot, diz no versículo 7 que ao cair da tarde haverá luz e, no versículo 8, que águas vivas sairão de Jerusalém. Água e luz. Os dois símbolos que Yeshua tomou para si na festa são os mesmos que o profeta amarra ao dia do Reino.
Um último fio, também da segunda prateleira. Durante Sukot, segundo a Mishná (Sukká 4:5), os sacerdotes davam a volta no altar repetindo o Salmo 118:25, ana YHWH hoshia na, "ó YHWH, salva agora". É o hosana. Quando a multidão recebe Yeshua em Jerusalém com ramos de palmeira gritando hosana (João 12:13), a festa é Pessach, mas o gesto e o grito são de Sukot.O Monte das Oliveiras
Leia Zacarias 14 do começo. YHWH sai para lutar contra as nações (v. 3). Os seus pés se firmam sobre o Monte das Oliveiras, em frente a Jerusalém, a leste, e o monte se parte (v. 4). YHWH vem, e todos os santos com ele (v. 5). YHWH será rei sobre toda a terra (v. 9).
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Depois vem o versículo 16, com as nações subindo para Sukot. E os versículos 17-19 acrescentam que as famílias que não subirem ficam sem chuva. Faz sentido numa festa de colheita: não celebrar o Rei da colheita é ficar sem a chuva da próxima.
Aqui a leitura de Heiser fecha o círculo. Se os setenta novilhos comemoram o livramento de Israel diante de todas as nações e seus deuses, então as nações derrotadas sobem para celebrar precisamente a festa da vitória de YHWH sobre elas. Um gesto de submissão ao Rei. Nenhuma das outras duas leituras explica isso. Se os setenta fossem oferendas aos deuses das nações, a profecia ficaria absurda. Se fossem expiação pelas nações, ela ficaria apenas estranha.
A cabana de Davi
Quem são, então, os sobreviventes das nações que sobem para a festa? Heiser responde pela forma como o Novo Testamento lê Amós.
Amós 9:11 promete: naquele dia levantarei a sukat David, a cabana caída de Davi. É a mesma palavra da festa. Em Atos 15, os líderes em Jerusalém discutem se os gentios que creram precisam primeiro se tornar judeus, e Ya'akov, ou Tiago, fecha a questão citando esse texto (15:16-17). Só que ele cita a versão grega, e ela diz algo diferente do hebraico. Onde o hebraico fala do remanescente de Edom, o grego leu adam, humanidade. Onde o hebraico diz yirshu, possuir, o grego leu yidreshu, buscar. As letras são quase as mesmas. O resultado é que a cabana de Davi é levantada para que o restante da humanidade busque o Senhor, com todas as nações sobre as quais o seu nome é invocado.
Para Heiser, a cabana de Davi reerguida é o próprio Yeshua, e o remanescente das nações são os gentios que entram na família de Deus por meio dele. Lida com essa lente, Zacarias 14:16 descreve o fim da mesma história: as nações que estavam sob outros senhores trocaram de lealdade, e celebram a vitória do Rei que as libertou.
Heiser dizia com todas as letras que alguns detalhes de Zacarias 14 não podem ser lidos literalmente depois da volta do Messias, e recusava rótulos. Nem amilenista, nem pós-milenista, e o texto antes do sistema. Se você leu o artigo sobre Apocalipse 20, já conhece o debate sobre como ler esses capítulos. Registro aqui onde Heiser se colocava, sem transformar isso em conclusão fechada.
Vale acrescentar outra conversa do mesmo podcast, o episódio 385, com David C. Mitchell. Mitchell defende que o livro de Salmos foi organizado para contar uma história: o rei de Israel, a oposição das nações, a morte do rei, a sua vitória, a redenção de Israel e, no fim, as nações reunidas em Sião para adorar YHWH na Festa dos Tabernáculos. É uma tese acadêmica discutida, não consenso. Mas mostra que Zacarias não está sozinho.
Palmas diante do trono
A linha termina no Apocalipse. No capítulo 7, João vê uma multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono, com ramos de palmeira nas mãos (7:9). As palmas são as de Levítico 23:40. E o versículo 15 diz que aquele que está sentado no trono estenderá a sua tenda sobre eles. O verbo é o mesmo de João 1:14. Os versículos 16-17 completam: não terão mais fome nem sede, e o Cordeiro os guiará às fontes das águas da vida. Palmas, tenda, água.
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No capítulo 21, a nova Jerusalém desce, e a voz anuncia: eis a tenda de Deus com os homens; ele armará a sua tenda com eles, e eles serão o seu povo (21:3). A cabana provisória do deserto termina numa morada que não se desmonta.
O Apocalipse não diz "Sukot" em lugar nenhum. A ligação é minha e de muitos outros intérpretes. Mas as peças vêm todas do texto.
O que muda na leitura
Sukot olha para trás e para frente ao mesmo tempo. Para trás, lembra que YHWH tirou o seu povo do deserto e o livrou de todos os poderes que o cercavam. Se Heiser está certo, os setenta novilhos são a declaração de que nenhum desses poderes ficou de fora da derrota. Para frente, a festa aponta para o dia em que Yeshua voltará ao monte de onde subiu, e gente das setenta nações subirá para celebrar a vitória dele sobre tudo o que antes as dominava.
Enquanto isso, a gente mora em cabanas. Kefa, ou Pedro, chama o próprio corpo de tenda (2 Pedro 1:13-14), e Shaul, ou Paulo, fala da nossa casa terrena, esta tenda, que será desfeita (2 Coríntios 5:1). A vida aqui é provisória, como era no deserto. A festa foi dada justamente para que ninguém esquecesse que o deserto não é o endereço final.
Na próxima vez que você passar por Números 29, faça a conta. Os setenta estão lá, esperando.





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