Ir para o conteúdo

O Monte das Oliveiras, a Festa dos Tabernáculos e a volta do Messias

Fruit for Sanctification Fruit for Sanctification · · —
O Monte das Oliveiras, a Festa dos Tabernáculos e a volta do Messias

Existe uma festa bíblica que os profetas empurraram para o futuro. Não é a Páscoa, que olha para a saída do Egito. Não é Shavuot, ou Pentecostes. Quando Zekharyah, ou Zacarias, descreve o dia em que YHWH reinará sobre toda a terra, a festa que as nações sobem a Jerusalém para celebrar é Sukot, ou Festa dos Tabernáculos.

Todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém subirão, ano após ano, para adorar o Rei, YHWH dos Exércitos, e para celebrar a Festa dos Tabernáculos. (Zacarias 14:16)

Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

Por que justamente essa? Passei um bom tempo com a pergunta, e a resposta mais interessante que encontrei parte de um detalhe de contabilidade em Números 29. Michael Heiser, que morreu em 2023, dedicou um episódio inteiro do Naked Bible Podcast a esse detalhe (o de número 206), e boa parte do que vem abaixo dialoga com ele. Sigo o mesmo método dos outros artigos daqui: numa prateleira, o que o texto afirma; na outra, o que os intérpretes propõem, Heiser incluído.


Cabanas, colheita e deserto

A instrução básica está em Levítico 23:33-43. No dia 15 do sétimo mês, Tishri, Israel celebra uma festa de sete dias, seguida de um oitavo dia de assembleia solene. Durante a semana, todo israelita mora numa suká, ou cabana. O motivo vem no próprio texto: para que as gerações saibam que YHWH fez Israel morar em cabanas quando o tirou do Egito (23:43). O versículo 40 manda ainda tomar frutos de árvore formosa, folhas de palmeira, ramos de árvores frondosas e salgueiros do ribeiro, e se alegrar diante de YHWH por sete dias.

A festa tem duas faces. Êxodo 23:16 a chama de chag ha'asif, ou Festa da Colheita, porque fechava o ano agrícola. E ela lembra os quarenta anos no deserto. Cai cinco dias depois de Yom Kipur, o dia mais solene do calendário, de que tratei no artigo sobre Azazel. O povo saía do jejum direto para a semana mais alegre do ano.

Era tão central que alguns textos nem dizem o nome. Em 1 Reis 8, Shlomó, ou Salomão, dedica o Templo durante hechag, "a Festa", e ninguém precisava perguntar qual. Ezequiel 45:25 usa o mesmo artigo definido.

Um parêntese sobre o nome em português, porque ele vai importar lá na frente. "Tabernáculos" confunde, já que tabernáculo em nossas Bíblias costuma traduzir mishkan, a tenda sagrada da presença no deserto. A festa não fala do mishkan. Fala das cabanas do povo. Só que a Septuaginta, a tradução grega feita antes de Yeshua, usa a mesma palavra, skēnē, para as duas coisas. Chama a festa de "festa das tendas" e chama o mishkan de "a tenda". Os autores da B'rit Hadashá, ou Novo Testamento, liam essa Bíblia grega, e vão aproveitar a coincidência.


A conta de Números 29

Números 29:12-38 lista as ofertas de cada dia da festa, e a lista tem um padrão. No primeiro dia, 13 novilhos. No segundo, 12. No terceiro, 11. A conta cai um por dia até o sétimo, com 7. Somando: 70. No oitavo dia, um só novilho (29:36).

Para ter ideia da escala, Pessach e Shavuot pedem dois novilhos por dia (Números 28:19, 28:27). Nenhuma outra festa chega perto. Até aqui estou na prateleira do texto: o número está lá, e é deliberado, porque ninguém chega a 70 por acaso com uma sequência decrescente tão arrumada.

Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)


Setenta é o número das nações

Gênesis 10, a Tabela das Nações, lista os povos que descendem de Noach, ou Noé. No texto hebraico, são 70 nomes; na Septuaginta, 72. É por isso que os manuscritos de Lucas 10:1 oscilam entre 70 e 72 discípulos enviados. O número passou a funcionar como "o mundo inteiro".

Deuteronômio 32:8-9 conta o que aconteceu depois de Babel. Quando o Altíssimo repartiu a herança entre as nações, fixou as fronteiras dos povos segundo o número dos benei Elohim, ou filhos de Deus, e ficou com Israel como porção própria. Aqui é preciso honestidade textual: o texto massorético, que está por trás da maioria das nossas Bíblias, diz "filhos de Israel". Um manuscrito de Qumran, o 4QDeutj, diz "filhos de Deus", e a Septuaginta vai na mesma direção. Heiser defendeu a leitura de Qumran a vida toda, e já expliquei o porquê no artigo sobre os benei Elohim e o conselho divino.

Nessa leitura, que Heiser chamava de cosmovisão de Deuteronômio 32, as nações foram entregues a seres celestiais subordinados, e Israel ficou com YHWH. Esses seres se corromperam. O Salmo 82 mostra Deus julgando-os no meio do conselho, e Deuteronômio 32:17 acusa Israel de sacrificar a shedim, demônios, deuses que não conhecia.

Setenta novilhos. Setenta nações. A pergunta se impõe.


Três explicações para os setenta

A tradição judaica notou a coincidência cedo. No Talmude, em Sukká 55b, Rabi Eleazar pergunta a que correspondem os setenta novilhos e responde que correspondem às setenta nações.


Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

A pesquisadora Noga Ayali-Darshan, num artigo publicado na Vetus Testamentum em 2015, foi buscar um paralelo fora da Bíblia. Em Emar, cidade da antiga Síria, havia uma grande festa de sete dias que começava no dia 15 do primeiro mês do ano. Os deuses da cidade eram levados para fora dos muros, até pedras sagradas erguidas, e setenta cordeiros eram oferecidos, um para cada deus do panteão. A conclusão dela é que os setenta novilhos de Números seriam o resto de um antigo costume de sacrificar a setenta deuses, depois limpo do politeísmo pelos sacerdotes, mas com o número preservado.

Jacob Milgrom, no comentário a Números, foi por outro caminho, apoiado num midrash, ou comentário rabínico, de Números Rabá. Ali, os setenta novilhos são expiação oferecida por Israel em favor das nações, e o midrash até põe na boca de Israel a queixa de que as nações deveriam amá-lo por isso e, em vez disso, o odeiam.

Heiser recusa as duas. A objeção dele é a mais simples possível e, a meu ver, a mais forte: Números 29 não diz que os novilhos são oferecidos às nações, nem aos seus deuses, nem em favor delas. Nenhum texto diz. As duas leituras importam o destinatário de fora.


Uma festa de vitória

Em vez de perguntar para quem eram os novilhos, Heiser pergunta o que a festa comemora. E lembra que o lado histórico de Sukot, o deserto, costuma ser engolido pelo lado agrícola.

Na cosmovisão de Deuteronômio 32, todo território fora da herança de YHWH está sob outro domínio. O deserto é o caso extremo: caos, morte, lugar de ruínas e de seres hostis. É para lá que vai o bode de Azazel no Yom Kipur, levando o pecado de volta ao território a que pertence. Durante quarenta anos, Israel atravessou esse território. O único chão santo era o acampamento, com a presença no centro. Em volta, inimigos visíveis e invisíveis, e YHWH sustentando o povo dia após dia.

Sukot celebra o fim dessa travessia. É a festa do livramento. E daí vem o argumento central de Heiser, que eu parafraseio: um povo que acabou de ser livrado não oferece sacrifícios aos poderes de que foi livrado. Ninguém aplaca um inimigo derrotado. Os setenta novilhos comemoram a vitória de YHWH sobre a totalidade dos deuses hostis a Israel. Setenta, porque é o número de "todos". Gratidão, não negociação.

Há um detalhe curioso: a pista veio do próprio Milgrom. Depois de ligar os setenta às nações, Milgrom comenta que não admira que Zacarias tenha profetizado Sukot como festa universal. Heiser pega esse fio e o puxa até o fim.

Agora a prateleira da interpretação, com franqueza. O texto também não diz que os setenta significam vitória sobre os deuses das nações. A leitura de Heiser é uma inferência, como as outras. A diferença é que ela parte do sentido que a própria Torá dá à festa (Levítico 23:43) e não de um paralelo sírio ou de um midrash tardio. Por isso ela me convence mais. E, como veremos, é a única das três que torna Zacarias 14 coerente.


O Verbo que armou tenda

Volto ao parêntese do nome. Yochanan, ou João, abre o evangelho dizendo que o Verbo se fez carne e habitou entre nós (1:14). O verbo grego é eskēnōsen, da família de skēnē. Literalmente: armou a sua tenda entre nós. Na sequência, João fala de glória, e glória na Torá é o que enche o mishkan (Êxodo 40:34). A presença que morava na tenda sagrada agora mora em carne, no meio do povo.

Isso está no texto. Se João tinha Sukot em mente especificamente, ou só o mishkan, é debate. Mas a palavra grega abraça as duas coisas, e ele sabia disso.


Água e luz no último dia da festa

João 7 põe Yeshua em Jerusalém durante Sukot. No último dia, "o grande dia da festa", ele se levanta e clama: se alguém tem sede, venha a mim e beba; de quem crê em mim, como diz a Escritura, correrão rios de água viva. E João explica que ele falava de Ruach HaKodesh, ou Espírito Santo (7:37-39). Qual era esse último dia, o sétimo ou o oitavo, é discutido entre os comentaristas.

A Mishná, compilada por volta do ano 200 a partir da memória do Segundo Templo, ajuda a ouvir a cena como os presentes a ouviram. Em Sukká 4:9, cada manhã da festa um sacerdote descia ao tanque de Shiloach, ou Siloé, enchia um jarro de ouro e derramava a água sobre o altar. Em Sukká 5:2-4, à noite, candelabros enormes eram acesos no pátio das mulheres, e o texto diz que não havia pátio em Jerusalém que não fosse iluminado por aquela luz. Havia dança com tochas a noite toda. A mesma seção guarda o ditado de que quem não viu a alegria da tiragem da água nunca viu alegria na vida.

No capítulo seguinte, ainda no Templo, Yeshua diz: eu sou a luz do mundo (8:12). E João 8:20 informa que ele disse isso junto ao tesouro, que ficava justamente no pátio das mulheres, onde estavam os candelabros. Essa ligação é observação de muitos intérpretes, não é de Heiser, e depende de uma fonte compilada depois do Novo Testamento. Fica na segunda prateleira. Mas é difícil não ver.

E há mais. Zacarias 14, o capítulo que termina com as nações em Sukot, diz no versículo 7 que ao cair da tarde haverá luz e, no versículo 8, que águas vivas sairão de Jerusalém. Água e luz. Os dois símbolos que Yeshua tomou para si na festa são os mesmos que o profeta amarra ao dia do Reino.

Um último fio, também da segunda prateleira. Durante Sukot, segundo a Mishná (Sukká 4:5), os sacerdotes davam a volta no altar repetindo o Salmo 118:25, ana YHWH hoshia na, "ó YHWH, salva agora". É o hosana. Quando a multidão recebe Yeshua em Jerusalém com ramos de palmeira gritando hosana (João 12:13), a festa é Pessach, mas o gesto e o grito são de Sukot.


O Monte das Oliveiras

Leia Zacarias 14 do começo. YHWH sai para lutar contra as nações (v. 3). Os seus pés se firmam sobre o Monte das Oliveiras, em frente a Jerusalém, a leste, e o monte se parte (v. 4). YHWH vem, e todos os santos com ele (v. 5). YHWH será rei sobre toda a terra (v. 9).

Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

Heiser chama atenção para Atos 1. Yeshua sobe diante dos discípulos, dois homens de branco anunciam que ele voltará do mesmo modo, e o versículo 12 diz de onde os discípulos desceram: do monte chamado das Oliveiras. O ponto de partida da ascensão é o ponto de chegada de Zacarias.

Depois vem o versículo 16, com as nações subindo para Sukot. E os versículos 17-19 acrescentam que as famílias que não subirem ficam sem chuva. Faz sentido numa festa de colheita: não celebrar o Rei da colheita é ficar sem a chuva da próxima.

Aqui a leitura de Heiser fecha o círculo. Se os setenta novilhos comemoram o livramento de Israel diante de todas as nações e seus deuses, então as nações derrotadas sobem para celebrar precisamente a festa da vitória de YHWH sobre elas. Um gesto de submissão ao Rei. Nenhuma das outras duas leituras explica isso. Se os setenta fossem oferendas aos deuses das nações, a profecia ficaria absurda. Se fossem expiação pelas nações, ela ficaria apenas estranha.



A cabana de Davi

Quem são, então, os sobreviventes das nações que sobem para a festa? Heiser responde pela forma como o Novo Testamento lê Amós.

Amós 9:11 promete: naquele dia levantarei a sukat David, a cabana caída de Davi. É a mesma palavra da festa. Em Atos 15, os líderes em Jerusalém discutem se os gentios que creram precisam primeiro se tornar judeus, e Ya'akov, ou Tiago, fecha a questão citando esse texto (15:16-17). Só que ele cita a versão grega, e ela diz algo diferente do hebraico. Onde o hebraico fala do remanescente de Edom, o grego leu adam, humanidade. Onde o hebraico diz yirshu, possuir, o grego leu yidreshu, buscar. As letras são quase as mesmas. O resultado é que a cabana de Davi é levantada para que o restante da humanidade busque o Senhor, com todas as nações sobre as quais o seu nome é invocado.

Para Heiser, a cabana de Davi reerguida é o próprio Yeshua, e o remanescente das nações são os gentios que entram na família de Deus por meio dele. Lida com essa lente, Zacarias 14:16 descreve o fim da mesma história: as nações que estavam sob outros senhores trocaram de lealdade, e celebram a vitória do Rei que as libertou.

Heiser dizia com todas as letras que alguns detalhes de Zacarias 14 não podem ser lidos literalmente depois da volta do Messias, e recusava rótulos. Nem amilenista, nem pós-milenista, e o texto antes do sistema. Se você leu o artigo sobre Apocalipse 20, já conhece o debate sobre como ler esses capítulos. Registro aqui onde Heiser se colocava, sem transformar isso em conclusão fechada.

Vale acrescentar outra conversa do mesmo podcast, o episódio 385, com David C. Mitchell. Mitchell defende que o livro de Salmos foi organizado para contar uma história: o rei de Israel, a oposição das nações, a morte do rei, a sua vitória, a redenção de Israel e, no fim, as nações reunidas em Sião para adorar YHWH na Festa dos Tabernáculos. É uma tese acadêmica discutida, não consenso. Mas mostra que Zacarias não está sozinho.


Palmas diante do trono

A linha termina no Apocalipse. No capítulo 7, João vê uma multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono, com ramos de palmeira nas mãos (7:9). As palmas são as de Levítico 23:40. E o versículo 15 diz que aquele que está sentado no trono estenderá a sua tenda sobre eles. O verbo é o mesmo de João 1:14. Os versículos 16-17 completam: não terão mais fome nem sede, e o Cordeiro os guiará às fontes das águas da vida. Palmas, tenda, água.


Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

No capítulo 21, a nova Jerusalém desce, e a voz anuncia: eis a tenda de Deus com os homens; ele armará a sua tenda com eles, e eles serão o seu povo (21:3). A cabana provisória do deserto termina numa morada que não se desmonta.

O Apocalipse não diz "Sukot" em lugar nenhum. A ligação é minha e de muitos outros intérpretes. Mas as peças vêm todas do texto.


O que muda na leitura

Sukot olha para trás e para frente ao mesmo tempo. Para trás, lembra que YHWH tirou o seu povo do deserto e o livrou de todos os poderes que o cercavam. Se Heiser está certo, os setenta novilhos são a declaração de que nenhum desses poderes ficou de fora da derrota. Para frente, a festa aponta para o dia em que Yeshua voltará ao monte de onde subiu, e gente das setenta nações subirá para celebrar a vitória dele sobre tudo o que antes as dominava.

Enquanto isso, a gente mora em cabanas. Kefa, ou Pedro, chama o próprio corpo de tenda (2 Pedro 1:13-14), e Shaul, ou Paulo, fala da nossa casa terrena, esta tenda, que será desfeita (2 Coríntios 5:1). A vida aqui é provisória, como era no deserto. A festa foi dada justamente para que ninguém esquecesse que o deserto não é o endereço final.

Na próxima vez que você passar por Números 29, faça a conta. Os setenta estão lá, esperando.

Comentários

Deixe um comentário

Pesquisar este blog

Este site usa cookies para medir o tráfego e exibir anúncios. Continue navegando para aceitar.