Usando os dons dEle sem olhar para Ele
Sobre a forma mais silenciosa de perder Yeshua de vista
Há uma frase que não me sai da cabeça desde que a li: dá pra perder Yeshua, ou Jesus, de vista usando os dons dele o tempo inteiro.
Não é uma frase sobre pecado escancarado. Não fala de quem abandonou a fé, de quem trocou a igreja pelo mundo, de quem caiu em escândalo. Fala de gente que continua pregando, orando, liderando e cantando. Gente ocupada com as coisas de Deus. E é exatamente por isso que ela incomoda tanto.
Porque o problema que ela descreve não faz barulho. Ninguém percebe quando acontece. Nem a pessoa.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
O dom continua funcionando
Pense em alguém que prega com beleza. As palavras saem redondas, o raciocínio encaixa, a congregação responde. Com o tempo, sem nenhuma decisão consciente, a pessoa começa a se encantar mais com a própria frase do que com Aquele de quem a frase fala. O sermão ainda é sobre Yeshua. Mas o pregador já não está olhando para Ele enquanto fala. Está olhando para o texto, para a estrutura, para a reação.
Ou alguém que ora por libertação. Conhece os nomes, os padrões, as portas de entrada. E aos poucos o mapa dos perigos espirituais toma o lugar do Libertador. A oração fica cheia de inimigo e vazia de Yeshua.
Ou o líder que lembra de tudo e de todos. Sabe o aniversário de cada membro, quem está doente, quem faltou, quem precisa de uma visita. É um dom real, e a igreja depende dele. Só que existe um jeito de servir tanta gente que, no meio de tantos rostos, o rosto de quem está sendo servido some.
Ou quem compõe. Uma melodia bonita nasce, a harmonia fecha, a letra rima. E a canção, que deveria ser uma carta de amor, vira apenas uma peça bem feita.
Em nenhum desses casos o dom parou de funcionar. Esse é o ponto. A pregação continua tocando. A oração continua sendo feita. A igreja continua sendo cuidada. O louvor continua bonito. Tudo o que é visível segue igual. O que mudou foi invisível: o centro.
Éfeso já passou por isso
A B'rit Hadashá, ou Novo Testamento, guarda um retrato exato dessa situação. Está em Apocalipse 2, na carta à igreja de Éfeso.
Yeshua, começa elogiando. Ele conhece as obras daquela igreja, o trabalho, a perseverança. Sabe que eles não toleram os maus, que testaram os que se diziam apóstolos e os desmascararam, que sofreram por causa do nome dele sem desanimar. Se fosse uma avaliação de desempenho, Éfeso passaria com louvor. Doutrina firme, discernimento afiado, disposição para sofrer.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Repare no que Yeshua não diz. Ele não diz que a doutrina está errada. Não diz que o trabalho parou. Não diz que o discernimento falhou. Todos os dons estão em pleno uso. O que se perdeu foi a relação que dava sentido a eles. Éfeso continuava fazendo tudo pelo nome de Yeshua, e tinha deixado de fazer tudo por Yeshua.
É a mesma igreja que, décadas antes, tinha recebido de Paulo a oração mais apaixonada sobre conhecer o amor de Cristo, um amor que excede todo entendimento. Não foi a heresia que a afastou daquilo. Foi o hábito.
Por que é tão difícil perceber
Quando alguém cai em pecado aberto, existe um sinal. A consciência acusa, a comunidade nota, algo quebra. Mas quando alguém perde Yeshua de vista enquanto continua servindo, todos os sinais externos dizem que está tudo bem. A agenda está cheia. Os frutos aparecem. As pessoas elogiam. E cada elogio confirma que o caminho está certo.
Yeshua alertou sobre isso de um jeito assustador em Mateus 7. Ele fala de gente que no último dia vai dizer: não profetizamos em teu nome, não expulsamos demônios em teu nome, não fizemos milagres em teu nome? E a resposta dele não é que essas obras eram falsas. A resposta é: nunca vos conheci. O dom operou. A relação nunca existiu.
Não estou dizendo que todo mundo que se distrai com o próprio dom está nessa condição. Éfeso não estava. Éfeso era igreja de verdade, e Yeshua a tratava como tal. Mas o caminho é o mesmo, e o alerta serve para nós justamente porque ainda dá tempo.
Marta, em Lucas 10, é talvez o exemplo mais doméstico disso. Ela está servindo Yeshua. Literalmente. Ele está na casa dela, e ela está cuidando dele. E mesmo assim ouve que está ansiosa com muitas coisas, enquanto uma só é necessária. Maria escolheu sentar e olhar. Marta escolheu servir sem olhar. As duas amavam. Só uma estava com a atenção no lugar certo.
O remédio que Yeshua dá
A carta a Éfeso não termina na acusação. Yeshua dá três verbos: lembra, arrepende, volta a praticar as primeiras obras.
Lembra de onde caíste. Ou seja, houve um lugar mais alto. Houve um tempo em que a pregação era conversa com Ele antes de ser discurso para os outros. Em que a oração era encontro antes de ser guerra. Em que a liderança era gratidão antes de ser função. Em que a música era carta antes de ser arranjo. A memória desse lugar é o primeiro passo, porque quem não lembra de ter caído não tem de onde voltar.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Arrepende. Não é arrependimento de ter servido. É arrependimento de ter servido sem Ele. É reconhecer que o dom virou fim, e que o Doador ficou de fora do próprio dom.
Pratica as primeiras obras. Aqui a coisa fica concreta. As primeiras obras não são obras diferentes. São as mesmas pregações, orações, visitas e canções, feitas de novo com o rosto voltado para quem as recebe.
Uma pergunta para levar
Então a pergunta que fica não é se você está usando o seu dom. Provavelmente está, e provavelmente bem. A pergunta é se você ainda está olhando para Ele enquanto usa.
Porque é possível pregar sobre Yeshua e não falar com Ele há semanas. É possível orar contra as trevas e não ter contemplado a luz. É possível cuidar da noiva e esquecer do Noivo. É possível compor para Deus e não cantar para Ele.
E o mais assustador é que nada disso aparece por fora. O dom continua ali, funcionando, produzindo, sendo elogiado. Yeshua mesmo disse que ninguém nos tiraria isso pelo caminho. O que Ele pediu, com a voz de quem ama, foi outra coisa: que a gente voltasse para Ele antes que o candelabro fosse removido.
O dom é dele. Que a gente não o use de costas para Ele.
Em qual desses quatro você mais se reconhece? Deixa nos comentários.



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