Os nove últimos capítulos de Yechezkel, ou Ezequiel, descrevem um templo. Com medidas, sacerdócio, calendário de festas e um sistema de ofertas. Inclusive ofertas pelo pecado, que o texto diz fazerem כִּפֵּר, kipper.
E aí está o problema, que não adianta contornar com jeitinho: Hebreus afirma que o Messias ofereceu um único sacrifício pelos pecados, para sempre, e que onde há remissão já não há oferta pelo pecado.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Essa é, na minha experiência, a objeção que mais trava gente boa nesse assunto. E a resposta que se costuma dar é fraca. Vou mostrar por quê, e depois vou onde acho que está a resposta de verdade, que não é invenção nenhuma: é como o sistema do Levítico sempre funcionou.
O que Ezequiel descreve
A visão começa no capítulo 40, com um homem de aparência de bronze medindo cada estrutura. As medidas ocupam capítulos inteiros, cúbito por cúbito. É um trecho que a maioria das pessoas pula.
No capítulo 43 a glória de YHWH volta ao templo pelo portão oriental, desfazendo a partida que os capítulos 10 e 11 tinham descrito. E YHWH manda Ezequiel declarar à casa de Israel o desenho da casa, as saídas, as entradas e as ordenanças, para que se envergonhem e guardem tudo aquilo.
Pare nesse comando. As medidas são dadas para serem observadas. Não para serem admiradas.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
E tem um detalhe que quase ninguém comenta: isso não é o sistema mosaico restaurado. Não tem arca. Não tem sumo sacerdote nos moldes de Arão. O calendário é diferente. As quantidades são diferentes. Seja lá o que Ezequiel esteja vendo, não é o templo de Moshé, ou Moisés, nem o de Shlomo, ou Salomão.
O príncipe não é o Messias
Resolvo isso logo, porque muda tudo o que vem depois.
No capítulo 45, versículo 22, o nasi oferece um novilho como oferta pelo pecado por si mesmo e pelo povo. E no capítulo 46, versículos 16 a 18, ele tem filhos, com regras de herança para eles.
Nenhuma das duas coisas cabe no Messias. Quem quiser identificar os dois precisa forçar o texto em dois lugares independentes, e forçar duas vezes já é sinal de que o caminho está errado.
Por que "é só um memorial" não resolve
A saída mais comum entre quem defende a leitura literal é dizer que os sacrifícios serão memoriais, olhando para trás, para a cruz, como os antigos olhavam para frente.
A analogia é bonita e eu já usei. Mas ela tem um problema que não some: Ezequiel nunca os chama de memoriais. Ele usa kipper, a linguagem técnica de expiação, no capítulo 45, versículo 17, entre outros lugares.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Então vamos encarar o verbo
E aqui a coisa fica interessante, porque a raiz כ־פ־ר é disputada há mais de um século.
Três propostas estão na mesa. Cobrir, resgatar, e limpar.
A de cobrir vem do árabe kafara, e é a leitura mais antiga, a que está no léxico clássico de Brown, Driver e Briggs. Foi dela que nasceu a ideia tão repetida de que os sacrifícios antigos cobriam o pecado sem tirá-lo.
Essa leitura levou uma surra no século vinte. O motivo é o acadiano kuppuru, que corresponde ao hebraico e significa esfregar, limpar, purificar ritualmente. Levine e outros passaram a defender que expiar, na linguagem do culto, é limpar, e não esconder.
Mas antes que você descarte a primeira: há quem observe que as duas podem voltar a uma noção única de esfregar. Esfregar sobre e esfregar para fora estão a um passo um do outro, e em acadiano os dois usos aparecem lado a lado nos textos rituais. Nessa leitura, cobrir e limpar não são rivais. São o mesmo gesto visto de dois ângulos.
Guardo isso, porque resolve o problema sem precisar escolher lado.
O que a oferta pelo pecado realmente faz
Agora o argumento que, para mim, encerra a questão.
A oferta que traduzimos como oferta pelo pecado, חַטָּאת, chatat, é exigida no Levítico em situações onde não há pecado nenhum. Depois do parto. Depois de certas condições de pele. Depois de contato com um corpo. Na consagração do altar.
Não existe culpa moral em dar à luz. Nunca existiu.
E repare para onde vai o sangue: sobre o mobiliário e sobre o santuário, não sobre a pessoa. Por isso um número crescente de estudiosos do Levítico defende que a tradução exata seria oferta de purificação. A função dela é descontaminar o espaço sagrado da impureza acumulada, para que a presença possa continuar ali.
Isso vira o problema do avesso. O que os sacrifícios de Ezequiel fazem não é resolver a culpa eterna de ninguém. É manter habitável um lugar onde a glória de YHWH mora no meio de um povo que ainda anda em corpo mortal, num mundo restaurado mas não terminado.
E olhe o que Hebreus de fato diz. Ele não afirma que os sacrifícios antigos falharam nessa função. Afirma que eles jamais puderam tirar pecados nem aperfeiçoar a consciência. Isso vale igual para os do passado e para os do futuro. Nenhum dos dois conjuntos fez, nem vai fazer, o que só a cruz fez.
Não há duas expiações competindo. Há uma obra que resolve o pecado, feita uma vez, e um rito que mantém a santidade de um lugar, e que nunca resolveu pecado nenhum, nem antes nem depois.
Uma palavra que ajuda: korban
Tem um detalhe de vocabulário que muda a intuição da gente sobre esse assunto.
A palavra hebraica para oferta é קָרְבָּן, korban, e ela vem da raiz ק־ר־ב, qarav, aproximar-se. Oferta é literalmente aquilo que se traz para perto.
O nome da coisa nunca foi pagamento. Sempre foi aproximação. E um culto de aproximação num mundo onde a presença voltou a habitar entre pessoas de carne e osso não é concorrência com a cruz. É consequência dela.
Ezequiel não está sozinho
Isso importa, porque texto isolado é fácil de tratar como visão poética.
Yirmiyahu, ou Jeremias, no capítulo 33, versículos 17 e 18, diz que a Davi não faltará quem se assente no trono, e que aos sacerdotes levitas não faltará homem que ofereça holocaustos continuamente. As duas promessas vêm no mesmo fôlego, com a mesma garantia. Quem lê a segunda como figura precisa explicar por que a primeira não é.
Zecharyah, ou Zacarias, no capítulo 14, tem as nações subindo ano após ano para a festa das cabanas, e panelas comuns de Yerushalayim, ou Jerusalém, virando santas para uso no sacrifício.
Yeshayahu, ou Isaías, no capítulo 56, versículos 6 e 7, diz que os estrangeiros que se unirem a YHWH terão holocaustos e sacrifícios aceitos sobre o altar. E Mal'akhi, ou Malaquias, no capítulo 3, fala de uma purificação dos filhos de Levi para que ofereçam oferta em justiça.
O erro que quase todo mundo comete aqui
Muita exposição desse tema apresenta o templo futuro como programa separado, para Israel, enquanto os que vieram das nações teriam outro caminho.
Não é o que esses textos dizem.
Isaías 56 é explícito: as ofertas dos estrangeiros são aceitas sobre o mesmo altar, e a casa é chamada casa de oração para todos os povos. Zacarias 14 tem as nações subindo à mesma festa. Não existem dois templos, dois altares nem duas festas.
É exatamente a figura do enxerto em Romanos 11. Quem vem das nações é enxertado na mesma oliveira, não plantado numa segunda árvore ao lado. O templo futuro não restabelece separação nenhuma. É onde a separação já não existe.
E os corpos mortais?
Se há gente em corpo mortal no Reino, e há, isso levanta a pergunta óbvia sobre doença e morte. O próprio Ezequiel responde, no capítulo 47.
Do templo sai um rio. Nas margens crescem árvores cujo fruto serve de alimento e cuja folha serve de remédio. Apocalipse 22 retoma exatamente essa imagem, com a árvore da vida e as folhas para a cura das nações.
Ou seja: o mesmo lugar que precisa de purificação ritual é o lugar de onde sai a cura. As duas coisas não são estranhas uma à outra. São o mesmo templo funcionando.
Onde meu argumento aperta
Hebreus 10. Onde há remissão dos pecados, já não há oferta pelo pecado. É a objeção mais forte que existe contra o que escrevi, e não vou amaciá-la. Minha resposta é a distinção entre resolver culpa e purificar espaço. Mas reconheço que Ezequiel usa a mesma raiz que Hebreus está discutindo, e que a distinção depende da função do rito no Levítico, não de vocabulário diferente. É uma resposta que precisa ser argumentada, não uma que se imponha sozinha.
A aliança que envelhece. Hebreus 8 fala do que envelhece e está prestes a desaparecer. Quem lê literalmente precisa sustentar que o que cessou foi a eficácia da antiga aliança, e não toda forma de culto no santuário. Dá para sustentar. Mas não é o sentido mais imediato.
A geografia impossível. Essa é a mais séria, e a mais honesta de admitir. As faixas de terra dos capítulos 47 e 48 são paralelas e geometricamente regulares, e não têm nada a ver com o relevo real. O rio se aprofunda sem receber afluente nenhum. A cidade ganha um nome, YHWH Shamá.
Isso tem cara de visão idealizada, não de planta de obra. Minha posição é um literalismo parcial: templo real, culto real, linguagem visionária. É menos limpa que as duas alternativas, e quem lê tudo como símbolo tem, neste ponto, o argumento mais fácil. Não vou fingir o contrário.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Onde eu paro
O incômodo com sacrifícios futuros quase sempre nasce de uma premissa que ninguém examina: a de que todo sacrifício existe para resolver culpa. No Levítico, boa parte deles nunca teve essa função. Existiam para manter habitável um lugar onde a santidade encontra um povo que ainda não é o que vai ser.
Se é isso que Ezequiel descreve, não há competição com a cruz. Há uma obra que salva, feita uma vez e para sempre, e um culto que aproxima e mantém, num mundo restaurado mas ainda não consumado.
E vale terminar onde Ezequiel termina. O último versículo do livro não fala do altar nem das medidas. Fala do nome da cidade: YHWH Shamá, YHWH está ali. Os nove capítulos inteiros existem por causa dessa frase.




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