Gênesis 6 tem quatro versículos que atrapalham a vida de todo mundo que tenta explicá-los.
Eles falam de seres chamados filhos de Deus, de casamentos com filhas dos homens, e de uns tais Nefilim que aparecem do nada. O texto não explica quem são, não diz de onde vieram, e segue adiante como se o leitor já soubesse. Aí começa o dilúvio.
Já ouvi de tudo sobre essa passagem. Gigantes, extraterrestres, híbridos, DNA corrompido, e também a explicação mansinha de que são só duas famílias que não deviam ter se casado. Vou dizer logo onde eu fico: a leitura antiga, aquela que entende os filhos de Deus como seres celestiais, me parece bem mais sólida que as alternativas. E, no fim, mostro os lugares onde ela aperta, porque apertam mesmo.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Quatro versículos e nenhuma explicação
Antes de interpretar, vamos ler.
O versículo 4 diz que os Nefilim estavam na terra naqueles dias, וְגַם אַחֲרֵי כֵן, vegam acharei chen, e também depois disso. Depois conta que os filhos de Deus vieram às filhas dos homens, que elas geraram filhos, e que esses filhos eram הַגִּבֹּרִים, ha-gibborim, os valentes, אַנְשֵׁי הַשֵּׁם, homens do nome.
Repare numa coisa que quase toda exposição popular passa por cima: o texto não diz que os Nefilim nasceram daquelas uniões. Diz que eles estavam ali, e usa outra palavra, gibborim, para o que nasceu. Dá para juntar as duas coisas pela sintaxe, mas o texto não junta.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
De onde vem a palavra
A explicação mais comum liga nefilim à raiz נ־פ־ל, cair. Daí caídos.
Funciona, mas com um incômodo: a forma que teríamos de esperar de um particípio dessa raiz não é bem a que está no texto. Isso abriu espaço para uma proposta alternativa, ligando a palavra ao aramaico nafila, gigante.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
E a Septuaginta, a tradução grega, escolheu justamente gigantes. Foi por aí, via latim, que a ideia de estatura entrou no imaginário de todo mundo. Ou seja: boa parte do que a gente "sabe" sobre os Nefilim entrou pela tradução, não pelo hebraico. E a etimologia de caídos, embora mais provável, também não é certeza.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
O detalhe que decide a discussão
Aqui está, na minha opinião, o ponto que resolve a questão. E não é teológico. É de vocabulário.
A expressão בְּנֵי הָאֱלֹהִים, benei ha'elohim, filhos de Deus, não aparece só aqui. Está em Jó 1 e Jó 2, quando eles se apresentam diante de YHWH. Está em Jó 38, quando jubilam na fundação da terra, antes de existir gente. Aparece como benei elim no Salmo 29 e no Salmo 89.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
E em nenhum lugar da Bíblia hebraica a descendência de Shet, ou Sete, é chamada de filhos de Deus. A leitura setita, que é hoje a mais ensinada, precisa dar à expressão um sentido inédito, e precisa fazer isso exatamente no versículo onde o sentido normal seria constrangedor. É pedir muito.
Tem um problema adicional dentro do próprio parágrafo. No versículo 1, ha'adam significa a humanidade inteira, todo mundo que estava se multiplicando. No versículo 2, as filhas são filhas desse mesmo ha'adam. Para a leitura setita funcionar, a mesma palavra teria de mudar de sentido de um versículo para o outro, sem nenhum aviso no texto.
Quem leu isso primeiro
Uma coisa que me convenceu bastante foi olhar não para o que se diz hoje, mas para o que se dizia antes.
O Livro dos Vigilantes, que abre o Primeiro Enoque e é de uns três séculos antes da era comum, conta a história inteira em chave sobrenatural. O Livro dos Jubileus, idem. O Documento de Damasco, achado em Qumran, fala dos vigilantes do céu que caíram. O Gênesis Apócrifo narra Lemech desconfiando que o filho da esposa tinha origem entre os vigilantes, o que só faz sentido se essa era a leitura corrente.
Fora dos textos sectários, Josefo conta a mesma coisa nas Antiguidades. Fílon escreveu um tratado inteiro sobre isso.
E tem a Septuaginta, que aqui exige cuidado, porque muita gente cita errado. Em Gênesis 6 o texto crítico traz a tradução literal, filhos de Deus; é o Códice Alexandrino que traz anjos de Deus, e essa é uma variante, não a leitura padrão. Só que a mesma Septuaginta verte a expressão como anjos de Deus em Jó 1, em Jó 2, em Jó 38 e em Deuteronômio 32. Ou seja, quando os tradutores gregos encontravam benei elohim, eles sabiam muito bem do que se tratava.
Isso não prova nada sozinho. Consenso antigo já esteve errado antes. Mas quando todos os leitores mais próximos do texto, em tempo, língua e cultura, entendem uma coisa só, quem discorda é que precisa explicar o que eles não viram.
Judas e Pedro
Yehudá, ou Judas, no versículo 6, fala de mensageiros que não guardaram o próprio principado e abandonaram a própria habitação. No versículo seguinte compara com Sedom, ou Sodoma, dizendo que aquela cidade, de modo semelhante, foi após outra carne.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Dois detalhes pesam. Abandonar a habitação própria é linguagem de sair do lugar que lhe cabe. E a comparação com Sodoma é feita em termos de transgressão de fronteira, não de idolatria genérica. Some a isso que Judas cita material enoquiano explicitamente poucos versículos depois, e fica claro qual tradição ele tinha na cabeça.
Segunda Kefa, ou Segunda Pedro, capítulo 2, repete a mesma estrutura e coloca o episódio logo antes do dilúvio. Anjos, dilúvio, Sodoma, na mesma ordem das fontes antigas.
E tem um detalhe de vocabulário nessa passagem que merece atenção. O verbo que Pedro usa para o que foi feito com aqueles anjos aparece só ali em todo o Novo Testamento, e é formado sobre Tártaro, o nome grego do lugar mais profundo de reclusão. Ele não usou a palavra comum para inferno. Escolheu um termo que qualquer leitor de língua grega associaria a prisão de seres divinos rebeldes.
Sendo honesto: nenhum dos dois usa a palavra Nefilim. A ligação vem da estrutura e do contexto, não de citação. É inferência forte, mas é inferência.
O monte, o juramento e o que sobrou
Vale abrir Enoque um pouco mais, porque é ali que a história ganha os detalhes que Gênesis não dá.
Duzentos vigilantes descem, e descem num lugar específico: o monte Hermon. E o texto explica o nome do monte pelo que aconteceu ali. Semyaza, o líder, teme carregar a culpa sozinho, então propõe que todos se liguem por juramento, um חֵרֶם, cherem, voto de maldição, para que ninguém pudesse recuar depois. O nome do monte, nessa leitura, guarda o juramento.
Pode ser etimologia popular, e provavelmente é. Mas note o que ela revela: quem escreveu aquilo lia a paisagem como testemunha. O monte não é cenário, é lembrança.
E há uma segunda coisa, que talvez seja a mais influente de tudo que Enoque produziu. No capítulo 15, quando os gigantes morrem, o texto diz que os espíritos que saem dos corpos deles passam a ser espíritos maus sobre a terra, e que ali permanecerão até o dia do juízo.
Essa é a explicação enoquiana para a origem dos demônios: não são anjos caídos, são os espíritos desencarnados de uma prole que não pertencia nem ao céu nem à terra.
Preciso ser claro aqui, porque esse ponto costuma ser vendido como se fosse bíblico: a Escritura nunca afirma isso. Não está em Gênesis, não está nos evangelhos, não está em Pedro nem em Judas. É leitura do segundo templo, e nada mais.
Mas é leitura antiga, e ajuda a entender por que o mundo do primeiro século falava de espíritos imundos com tanta naturalidade, sem nunca precisar explicar de onde vieram.
A leitura setita é mais nova do que parece
Esse é o dado que mais falta nas discussões, e o que mais me surpreendeu quando fui atrás.
A leitura setita não é a antiga que a sobrenatural veio estragar. É o contrário. Justino, Irineu, Atenágoras, Tertuliano, todos trabalham com a leitura sobrenatural. A setita aparece pela primeira vez no registro que temos com Júlio Africano, no começo do terceiro século, e é importante notar como: ele apresenta as duas possibilidades, sem cravar nenhuma. Quem transforma isso em posição firme é Agostinho, dois séculos depois, e Crisóstomo faz o mesmo no oriente.
Os motivos da virada são até compreensíveis. A literatura enoquiana perdeu prestígio, cresceu o desconforto com a ideia de seres celestiais gerando filhos, e havia receio de que a passagem cheirasse a politeísmo. Preocupações legítimas, todas elas. Só que são preocupações teológicas, e não algo que alguém encontrou no texto.
Onde meu argumento aperta
Não vou fingir que está tudo resolvido.
Mateus 22. Anjos não se casam nem são dados em casamento. É a objeção que mais me jogam, e ela tem força. Minha resposta é que a frase trata dos anjos no céu, e o assunto ali é a ressurreição, não a possibilidade de transgressão; Judas está falando justamente de quem largou o próprio lugar. Mas reconheço que essa distinção é minha, e Mateus não a faz.
Hebreus 1:5. Essa vem quase sempre logo depois. A pergunta "a qual dos anjos disse Deus alguma vez: tu és meu Filho?" seria prova de que seres celestiais nunca são chamados filhos de Deus. Só que o texto ali não está fazendo afirmação de vocabulário: está citando fórmula de entronização real, tirada do Salmo 2 e de Segundo Samuel 7, para dizer que nenhum anjo foi jamais entronizado como o Messias foi. É sobre posição, não sobre nomenclatura. E Jó 38:7 encerra a discussão sozinho, porque ali os filhos de Deus cantam quando a terra é fundada, antes de existir ser humano para ser chamado assim.
Os Nefilim podem não ser a prole. Já falei disso lá em cima e não vou disfarçar: essa objeção procede em parte. Ela derruba as reconstruções elaboradas sobre hibridismo, embora não mexa no argumento sobre quem são os filhos de Deus.
A tradição judaica leu de outro jeito. E aqui está a alternativa que eu mais respeito. O Targum de Onkelos verte a expressão como filhos dos grandes, dos nobres. Símaco fez parecido. Ou seja, existe uma leitura antiga que entende governantes se dizendo de origem divina, coisa documentada no Egito e na Mesopotâmia. Essa leitura é adversária bem mais séria que a setita, e quem só ataca a setita está escolhendo o oponente fácil.
E também depois disso. Se o dilúvio levou todo mundo menos a família de Noach, ou Noé, por que a categoria reaparece em Números 13? Não tenho resposta boa. Já ouvi que o fenômeno se repetiu, que alguma linhagem passou pelas noras, que o termo virou só uma categoria descritiva. Enoque tem a dele: os corpos morreram, os espíritos ficaram. Nenhuma dessas está no texto de Gênesis. E lembre que a menção em Números vem do relatório dos dez espias, que o próprio livro trata como covardia.
Uma confusão comum
Nefilim, anaquins, refains, emins e zanzumins não são a mesma coisa. As traduções às vezes aproximam, e a internet junta tudo num caldeirão só, mas o hebraico trata como povos distintos, com nomes e territórios próprios.
Onde eu paro
Acho que a leitura antiga vence. Ela combina com o uso hebraico da expressão, é a que todos os leitores antigos tinham, e é a que Judas e Pedro parecem pressupor. A setita é posterior e nasceu de um desconforto legítimo, mas de fora do texto.
Só que o Gênesis é econômico de um jeito quase irritante. Quatro versículos, nenhuma explicação, e o dilúvio começa. Tudo que vai além disso, e a internet vai muito além, é reconstrução nossa.
Dá para defender a leitura antiga e ainda assim admitir que não sabemos o que Moshé, ou Moisés, presumia que o leitor já soubesse. As duas coisas cabem juntas. Aliás, acho que só cabem juntas.






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