As últimas lágrimas
O que fica entre o lago de fogo de Apocalipse 20 e a mão de Deus em Apocalipse 21
Existe uma linha que ninguém desenhou e que muda a leitura de dois capítulos inteiros. É a linha entre Apocalipse 20 e Apocalipse 21.
João não a colocou ali. A divisão em capítulos chegou muito depois e na maior parte do tempo ela ajuda. Mas nesse ponto ela esconde uma coisa: O capítulo 20 termina com gente sendo lançada no lago de fogo. O capítulo 21 começa com um novo céu e uma nova terra. E três versículos depois, Deus enxuga as lágrimas dos olhos do seu povo. No texto original isso é um fôlego só. Não tem pausa. Não tem intervalo. Não tem tempo de se recompor...
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Quando a gente lê os dois capítulos separados, a cena das lágrimas parece um consolo genérico, o fim de todas as tristezas de uma vida inteira! Quando a gente lê na ordem em que foi escrito, uma pergunta aparece que não sai mais: de que são essas lágrimas?
Primeiro, o trono
Antes de chegar nas lágrimas é preciso passar por onde João passou, sem apressar.
Em Apocalipse 20, a partir do versículo 11, aparece um grande trono branco. A terra e o céu fogem de diante de quem está sentado nele, e não se acha lugar para eles. Os mortos comparecem, e João faz questão de dizer: grandes e pequenos.
Livros são abertos, e outro livro, o da vida. Cada um é julgado segundo as suas obras. A morte e o inferno são lançados no lago de fogo, e isso é chamado de segunda morte. E então o versículo quinze, o último do capítulo: quem não foi achado inscrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
É a frase mais dura do livro, e o livro não é suave. Mas repare no que ela não diz. Ela não diz que eram estranhos. "Grandes e pequenos" não é uma multidão sem rosto. É todo mundo. E quem estiver ali de pé, do lado de cá, vai reconhecer as pessoas. Um pai. Uma filha. O amigo de infância. A pessoa que a gente convidou tantas vezes e que sempre disse agora não...
João não descreve o que os redimidos sentem nesse momento. Ele simplesmente muda de cena. E é exatamente esse silêncio que abre espaço para a pergunta.
Depois, a mão
Apocalipse 21 começa com um novo céu e uma nova terra, e a cidade santa descendo como uma noiva. Uma grande voz sai do trono e anuncia que o tabernáculo de Deus está com os homens, que Ele habitará com eles, que serão seu povo e que o próprio Deus estará com eles.
E então o versículo quatro. Ele enxugará dos olhos deles toda lágrima. Não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.
Duas coisas nesse versículo merecem atenção. A primeira é quem enxuga: o Criador! No livro inteiro, Ele aparece sentado no trono, com trovões e relâmpagos, com sete espíritos diante dele, cercado de criaturas que não param de cantar. É a única vez em que a mão dEle aparece fazendo uma coisa tão pequena, tão próxima, tão de pai. A segunda coisa é a palavra "toda". Toda lágrima. Não a maioria, não as antigas, toda! Inclusive a que ainda está escorrendo.
De onde vem a imagem
João não inventou essa cena. Ele está citando Isaías 25:8, onde Deus traga a morte para sempre, enxuga as lágrimas de todos os rostos e tira o opróbrio do seu povo de toda a terra. Ali as lágrimas estão ligadas a duas coisas: à morte e à vergonha. E a primeira vez que João usa a imagem no seu próprio livro, em Apocalipse 7:17, é para os que saíram da grande tribulação, os que foram perseguidos, que passaram fome e sede, que morreram por causa do nome.
Ou seja, a leitura mais antiga dessas lágrimas é que elas são tudo o que a vida velha custou. Luto, perseguição, perda, pecado, cansaço. E essa leitura está certa. Não estou propondo trocá-la. Estou fazendo uma pergunta que ela não responde: entre todas essas lágrimas, quais são as últimas? Qual é a que ainda está no rosto quando a mão chega?
E a posição do versículo responde. Você não chega em 21:4 sem ter acabado de passar por 20:15.
As últimas lágrimas
Pense no que aconteceu com o povo de Deus até aquele ponto. Eles já foram ressuscitados. Já reinaram. Já viram o inimigo derrotado de uma vez. Já não têm nada a temer. A morte, aquilo que arrancou lágrimas de todo ser humano que já viveu, acabou de ser lançada no lago de fogo. Não há mais nenhum motivo pessoal para chorar.
E ainda assim há lágrimas para enxugar.
Só existe uma tristeza que sobrevive à derrota da morte, à ressurreição do corpo e à presença visível de Deus. É a tristeza de olhar para o outro lado. De ter visto quem a gente amava ficar de fora. De ter reconhecido rostos na multidão dos grandes e pequenos e não ter podido fazer nada, porque o tempo de fazer alguma coisa era antes.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
E depois disso, nunca mais. As primeiras coisas passaram. O versículo seguinte diz que Ele faz novas todas as coisas, e que essas palavras são fiéis e verdadeiras. O texto não promete que a gente vai esquecer. Promete que não vai doer. É diferente, e é melhor.
O que isso pede de nós agora...
Um artigo sobre o fim do mundo poderia terminar no consolo. Mas o texto não deixa, porque ele foi escrito para gente que ainda está do lado de cá da linha.
Se as últimas lágrimas serão por alguém, então a pergunta mais importante que essa passagem faz não é sobre o futuro. É sobre hoje. É sobre quem, na sua vida, ainda está na lista dos rostos que você reconheceria. E é sobre o fato de que o tempo em que dá para fazer alguma coisa é este.
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| Fonte: (Acervo pessoal/ Fruit for Sanctification) |
A única maneira de alguém não ser motivo das últimas lágrimas é estar do lado de cá delas. E a única maneira de estar do lado de cá é ter sido chamado, por alguém, a tempo.
Tem alguém que você está adiando chamar? Talvez este seja o texto que você precisava ler antes de falar com essa pessoa.




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