Feche os olhos e imagine um serafim. O que apareceu foi, quase certamente, uma figura humana com asas de pássaro. Isaías viu outra coisa.
A imagem que temos dos serafins foi construída por dois mil anos de arte ocidental. Um profeta de Jerusalém no século oito antes de Cristo, ao ouvir a palavra saraph, não pensava em nada disso. Pensava em algo com escamas.
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| Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Este artigo segue o trabalho do doutor Michael Heiser, estudioso de línguas semíticas, sobre uma palavra hebraica e o que ela realmente designa. O que ele mostra muda a forma de ler o Éden, o deserto, o trono de YHWH e até a cruz.
O que a palavra designa
Saraph vem de uma raiz que significa queimar. Por isso muita gente traduz serafim como "os que ardem". Está certo, mas é só metade da história, porque a pergunta que importa não é o que a raiz significa. É o que a palavra designa quando aparece como substantivo no Tanach.
E a resposta é constante. Em Números 21:6, o povo murmura no deserto e YHWH envia contra eles os nechashim seraphim, as serpentes ardentes. Quando o povo se arrepende, YHWH manda Moshé, ou Moisés, fazer um saraph e colocá-lo num poste (21:8). O texto não diz "faça uma serpente"; diz "faça um saraph". E o versículo seguinte explica: Moisés fez uma serpente de bronze. Para o autor de Números, saraph e serpente são a mesma coisa.
Deuteronômio 8:15 descreve o deserto como o lugar do nachash saraph, da serpente ardente. Isaías 14:29 diz que da raiz da serpente sairá uma víbora, e do fruto dela um saraph me'ophef, um saraph voador. Isaías 30:6 coloca no Neguev a víbora e o saraph voador. Serpente voadora. Com asas.
Antes mesmo de chegarmos a Isaías 6, o hebraico já entregou o retrato: saraph é uma serpente que queima, pelo veneno ou pelo brilho, e que, pelo menos em Isaías, voa.
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A visão do trono
Vi YHWH assentado sobre um trono alto e sublime, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam acima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os pés e com duas voava. E clamavam uns aos outros: Santo, santo, santo é YHWH dos Exércitos. (Isaías 6:1-3)
Isaías conhecia o hebraico dele. Ele mesmo usou saraph para a serpente voadora nos capítulos 14 e 30. Quando escreve seraphim no capítulo 6, não está inventando uma palavra nova para um tipo novo de anjo. Está usando a palavra que todo leitor conhecia. O que ele viu ao redor do trono foram seres serpentinos, alados e ardentes. E repare no que um deles faz: voa até o altar, pega uma brasa viva com uma tenaz e toca os lábios do profeta. Fogo na mão de um ser cujo nome significa "o que arde". O nome descreve a natureza.
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A cobra do faraó e os selos de Judá
Aqui Heiser traz a arqueologia. No Egito existia o uraeus, a cobra erguida de capelo aberto na testa do faraó. Era a guardiã do trono; a tradição dizia que cuspia fogo contra os inimigos do rei, e em muitas representações tem asas.
Essa figura não ficou no Egito. Nos anos setenta, Othmar Keel reuniu dezenas de selos encontrados em Judá, datados do século oito antes de Cristo, o século de Isaías. O que aparece neles? Cobras aladas, com duas e com quatro asas, em selos de funcionários do reino usados para lacrar documentos oficiais. Karen Randolph Joines já havia apontado, nos anos sessenta, que a visão de Isaías 6 conversa diretamente com essa iconografia.
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Pense no que isso significa. Quando Isaías escreve que viu serafins alados ao redor do trono de YHWH, o público dele tinha a imagem gravada no anel que usava no dedo. A serpente alada era o símbolo de proteção do trono real. Isaías está dizendo: o trono verdadeiro tem os guardiões verdadeiros; os do faraó são cópia.
E há um detalhe que fecha o quadro. Segundo Reis 18:4 conta que o rei Chizkiyahu, ou Ezequias, contemporâneo de Isaías, destruiu a serpente de bronze que Moisés havia feito, porque o povo queimava incenso para ela. Chamavam-na Nechushtan. Na geração de Isaías, o saraph de bronze do deserto ainda existia e tinha virado objeto de culto. A serpente como figura sagrada não era abstração; era um problema na porta do templo.
Serafim e querubim
E os querubins? A resposta de Heiser é que serafim e querubim não são duas espécies de anjo, mas descrições de função e aparência dentro da mesma classe: os guardiões do trono. Os querubins de Ezequiel 1 e 10 são criaturas compostas, com rostos de homem, leão, boi e águia, cobertas de olhos, com asas. Os que guardam a entrada do Éden em Gênesis 3 têm a mesma função de proteger o acesso à presença de Deus. Os serafins de Isaías 6 fazem exatamente isso ao redor do trono. Um nome diz o que o ser faz; o outro, como ele parece. Esta é uma posição de Heiser, não unanimidade, e muitos mantêm as duas categorias separadas. Mas ela leva a sério que o mundo espiritual da Bíblia não é feito de figuras humanas de túnica, e sim de seres que os profetas só conseguiam descrever misturando o que conheciam: fogo, escamas, asas, olhos.
Quem era a serpente do jardim
Agora o passo mais ousado. Se saraph é uma serpente ardente que guarda o trono de Deus, e se o Éden era o lugar onde Deus se reunia com o seu conselho, quem era a serpente do jardim?
Gênesis 3 chama o tentador de nachash. A tradução "serpente" está certa. Mas Heiser aponta que a palavra carrega três sentidos ao mesmo tempo. Como substantivo, é serpente. Como verbo, nachash significa praticar adivinhação, ler presságios e, por extensão, enganar com falsa revelação. E é sonoramente irmã de nechosheth, bronze, o metal que brilha. Serpente, enganador, brilhante.
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O guardião que caiu
Duas passagens proféticas fecham o retrato. Ezequiel 28 fala do príncipe de Tiro, mas o descreve com palavras que nenhum rei humano mereceu: tu estavas no Éden, o jardim de Deus; tu eras o querubim ungido que cobria; estavas no monte santo de Deus e andavas entre as pedras de fogo, até que a iniquidade foi achada em ti. Isaías 14 fala do rei da Babilônia e o chama de Helel ben Shachar, o brilhante, filho da alva, que quis subir acima das estrelas de Deus e foi lançado abaixo.
Heiser lê as duas assim: os profetas comparam reis humanos arrogantes ao rebelde original, e o rebelde original é descrito como querubim, como brilhante, como alguém que estava no Éden entre as pedras de fogo. Todas as pistas apontam para o mesmo ser. Apocalipse 12:9 fecha o círculo: o grande dragão, a antiga serpente. João não estava misturando metáforas.
Duas ressalvas honestas. Ezequiel 28:14 tem uma variante textual: o hebraico diz "tu eras o querubim", a Septuaginta diz "tu estavas com o querubim"; Heiser segue o hebraico. E há estudiosos que veem em Isaías 14 e Ezequiel 28 apenas sátira contra reis humanos, sem camada sobrenatural. A leitura apresentada aqui é antiga e legítima, mas não é a única.
A serpente levantada
Volte ao deserto de Números 21, porque é ali que tudo se conecta com a cruz. O povo é mordido por serafins. YHWH manda levantar um saraph de bronze num poste, e quem olhasse para ele vivia. A cura vem de olhar para a imagem da própria coisa que estava matando. A serpente brilhante, erguida, é ao mesmo tempo o símbolo do mal e o instrumento da salvação.
E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna. (João 3:14-15)
Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)
Yeshua aplica a cena a si mesmo. O rebelde brilhante enganou a humanidade no jardim; a humanidade foi mordida; e a resposta de Deus foi levantar num madeiro aquele que carregaria a mordida por todos. A imagem da serpente, que tinha virado ídolo nos dias de Ezequias, é reabilitada por Yeshua como retrato da cruz.
O que fica
O que Heiser faz é devolver aos serafins a aparência que Isaías viu: guardiões do trono, ardentes, alados, serpentinos, do tipo que o Egito imitava e que Judá gravava nos seus selos. Ao devolver essa imagem, ele reconecta o Éden, o deserto, o templo e a cruz numa só linha. A serpente do jardim era um desses, um guardião que se rebelou. E o Deus que ela tentou enganar respondeu, séculos depois, levantando num poste a figura da própria serpente, e depois levantando num madeiro o próprio Filho.
Passagens tratadas: Isaías 6:1-7; Números 21:6-9; Deuteronômio 8:15; Isaías 14:29 e 30:6; 2 Reis 18:4; Ezequiel 1, 10 e 28:12-16; Isaías 14:12-15; Gênesis 3:1-6; Apocalipse 12:9; João 3:14-15.
Fontes: Michael S. Heiser, The Unseen Realm; Othmar Keel, Jahwe-Visionen und Siegelkunst (1977); Karen Randolph Joines, "Winged Serpents in Isaiah's Inaugural Vision", JBL 86 (1967).






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