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Façamos: o plural que a sua Bíblia esconde

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Façamos: o plural que a sua Bíblia esconde

 

Com quem Elohim estava falando? O plural oculto de Gênesis 1:26

Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)



Tem uma frase em Gênesis que a gente lê rápido demais. Está no capítulo um, verso vinte e seis, e a maioria das Bíblias traduz assim: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança." Façamos. Nossa imagem. Nossa semelhança. Se você parar um segundo nessa frase, ela devolve uma pergunta que não sai mais da cabeça. Com quem Elohim está falando?

Até esse verso, tudo no capítulo é dito no singular. Elohim disse, e houve luz. Elohim separou. Elohim chamou. Elohim viu que era bom. Dez vezes o texto repete "e disse Elohim", sempre uma voz só. E aí, no momento mais alto de toda a criação, na hora em que o ser humano vai ser formado, a voz muda. Não é "faço". É "façamos". Não é "minha imagem". É "nossa imagem".

A tradução não consegue mostrar o tamanho disso. A palavra hebraica é na'asseh, e ela está no plural. O detalhe que importa é que Elohim, apesar de ter forma plural em hebraico, vem acompanhado de verbos no singular o capítulo inteiro. Elohim cria, no singular. Elohim vê, no singular. Então não é o nome que puxa o plural. É o verbo que muda sozinho, exatamente aqui, e volta ao singular no verso seguinte: "e criou Elohim o homem à sua imagem". À imagem dele. Não à imagem deles.

A Torá não desperdiça palavra. Se a voz muda nesse ponto, não é descuido de escriba nem tropeço de gramática. E ao longo dos séculos, três explicações sérias surgiram para esse plural. Quero olhar cada uma com honestidade, porque a frase é séria demais para ser tratada com leveza, e porque cada uma delas ensina alguma coisa mesmo quando não fecha a conta.


A primeira leitura: o plural majestático

Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

Reis e autoridades antigas falavam de si no plural para expressar grandeza. Um soberano que dizia "nós decidimos" quando na verdade era só ele. Seria isso? É uma leitura possível, e muita gente boa a defende. Mas o hebraico bíblico não usa esse recurso com verbos.
O plural de majestade aparece em substantivos, como o próprio Elohim, ou Adonai. Não aparece em verbos na primeira pessoa. Quando o rei de Israel fala de si mesmo na Bíblia, ele fala no singular. Quando YHWH fala de si mesmo, também. Em nenhum outro lugar Deus fala de si assim de forma consistente. Então essa explicação resolve a gramática, mas deixa a sensação de que falta alguma coisa.


A segunda leitura: a corte celestial

Essa vem da tradição rabínica, e tem apoio no próprio texto. Elohim estaria falando com o conselho dos céus, com os seres celestiais que o cercam. Façamos o homem seria um convite feito diante da corte. E de fato o plural divino aparece de novo em Gênesis 3, "eis que o homem se tornou como um de nós", em Gênesis 11, "desçamos e confundamos", e em Isaías 6, quando YHWH pergunta "quem irá por nós?" diante de um trono cercado de serafins. Quem já viu os estudos sobre os Benei Elohim nossol sabe que o conselho celestial não é invenção. Ele está na Torá, nos Salmos e nos profetas.

Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)

Mas essa leitura também tropeça num ponto, e é um ponto que fica dentro do próprio verso. Elohim fala "façamos", e o verso 27 responde "e criou Elohim". Quem fala é plural. Quem cria é um. Se os anjos tivessem participado da criação do homem, a imagem seria compartilhada, e o texto diria à imagem deles. Não diz. Isaías 44 fecha a porta de vez: "Eu sou YHWH, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus". A corte pode estar ali ouvindo. Mas não foi a corte que fez o homem.


Então ficamos com uma frase em que alguém fala no plural e, na frase seguinte, um só age. E é isso que a terceira leitura leva a sério.


A terceira leitura: o cânone inteiro

E se o plural não for sobre majestade nem sobre anjos, mas sobre alguma coisa dentro do próprio Elohim?

Volte ao começo do capítulo. No verso dois, o texto diz que o Ruach de Elohim, o Espírito de Elohim, pairava sobre as águas. Antes de haver luz, Ruach HaKodesh já está presente. E o Evangelho de João abre com uma frase que qualquer leitor da Torá reconhece na hora: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Elohim, e o Verbo era Elohim. Todas as coisas foram feitas por meio dele". João não está inventando um começo novo. Ele está reescrevendo Gênesis um com uma pessoa dentro dele.

Junte as peças. Elohim cria. O Espírito Santo paira sobre as águas. O Verbo, por meio de quem tudo foi feito, está presente. E na hora de fazer o homem, a voz diz "façamos".


Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)


Não dois deuses. Não três. Um Elohim. O texto hebraico não deixa espaço para dúvida, e Israel nunca deixou. "Ouve, Israel: YHWH nosso Elohim, YHWH é um". A palavra é echad. E echad é uma palavra interessante, porque é a mesma que Gênesis 2 usa quando o homem e a mulher se tornam "uma só carne". Basar echad. Dois, unidos em um. É a palavra de Ezequiel quando os dois pedaços de madeira, Judá e Efraim, viram uma só vara na mão do profeta. Echad não é a unidade de uma pedra. É a unidade de algo que pode conter mais de um sem deixar de ser um.

Então a terceira leitura não quebra o monoteísmo. Ela o aprofunda. Um Elohim, cuja natureza contém uma riqueza que o "façamos" deixa escapar por um instante, antes de o texto voltar ao singular para proteger a única coisa que Israel jamais poderia esquecer: que YHWH é um.


Um cuidado necessário

Aqui é preciso frear um pouco. Isso não é caçar doutrina escondida em cada plural do hebraico. Gênesis 1, verso 26, sozinho, não prova nada. O que ele faz é levantar uma pergunta que o verso 27 começa a responder e que o resto das Escrituras continua respondendo. A frase abre uma porta. É o cânone inteiro que mostra quem estava do outro lado dela desde o princípio.

E é por isso que eu não gosto de vídeos e artigos que escolhem uma leitura e atiram nas outras. O plural de majestade ensina que Elohim é rei. A corte celestial ensina que Elohim não cria num vazio, mas diante de testemunhas. A leitura do cânone ensina que o Verbo e o Espírito não chegaram atrasados. As três olham para o mesmo verso. Só que uma delas explica também o verso seguinte.


O que isso muda para quem lê

Se o Verbo estava presente na criação, então Yeshua, ou Jesus, não começa em Mateus. Ele não surge na B'rit Hadashá, ou Novo Testamento, como um capítulo novo da história. Ele está ali no "façamos". Ali no Espírito que paira. Antes da luz, antes do homem, antes da queda. Silencioso, presente. E quando o homem foi formado do pó, à imagem daquele que disse "façamos", já havia um plano. Já havia uma aliança a caminho. Já havia redenção sendo preparada antes de existir pecado para redimir.

E tem a parte que torna isso pessoal. Você foi feito à imagem de Elohim. Não à imagem dos anjos. Não à imagem de um rei distante que fala de si no plural por protocolo. À imagem daquele que disse "façamos" e depois se abaixou e soprou vida no pó. Isso significa que você não é acidente nem ruído. Você carrega, na sua própria existência, a marca de quem te formou. E se o Elohim que disse "façamos" é o mesmo que declara em Malaquias "eu, YHWH, não mudo", então o propósito com que você foi criado continua de pé.

Do "façamos" de Gênesis até o Verbo que se fez carne, é o mesmo Elohim. A mesma voz. O mesmo plano. Depois de enxergar isso, não dá mais para ler "façamos o homem" do mesmo jeito. A pergunta "com quem Elohim estava falando?" deixa de ser um enigma de gramática e vira a primeira pista de uma história que vai do princípio até o fim.

Qual das três leituras você tinha aprendido? E qual delas explica o verso 27? Deixa nos comentários.

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