Tem gente que sabe o Salmo 91 de cor. Já vi esse salmo emoldurado em parede de sala, impresso em marcador de livro, lido em voz alta antes de viagem. E quase sempre a atenção fica nos anjos que guardam os caminhos e no pé que não tropeça em pedra. O versículo seguinte passa meio despercebido:
Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)
Pisarás o leão e a áspide; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente. (Salmo 91:13)
Lido assim, parece uma promessa de viajante: você vai atravessar o deserto e as feras não vão te pegar. Não está errado. Mas é pouco. Quando se olha o hebraico, quando se olha como os judeus do tempo de Yeshua liam esse salmo, e quando se olha o que o próprio Yeshua fez com ele, o versículo cresce bastante.
Neste artigo vou manter duas prateleiras separadas, como costumo fazer aqui. Numa fica o que o texto diz. Na outra, o que leitores antigos e modernos propõem a partir dele. As duas são úteis, mas não têm o mesmo peso, e misturar uma com a outra é o jeito mais rápido de errar.
Primeira prateleira: o que o versículo diz
O hebraico tem quatro animais em duas linhas, num paralelismo típico da poesia bíblica. Na primeira linha aparecem shachal, ou leão, e peten, ou áspide. Shachal é uma palavra poética para o leão; aparece poucas vezes, quase sempre em Jó e nos Salmos. Peten é uma serpente venenosa, e a maioria dos dicionários pensa na naja. É a mesma cobra de Isaías 11:8, onde a criança brinca na toca dela sem perigo.
Na segunda linha vêm kefir, o leão jovem, no auge da força, e tannin. E aqui o versículo muda de temperatura.
Tannin não é uma cobra qualquer. Em Êxodo 7 a palavra descreve a vara de Aharon, ou Arão, que vira serpente diante do faraó, então ela pode, sim, significar serpente. Mas o uso mais marcante está em outro lugar. Em Gênesis 1:21 Deus cria os taninim, os grandes monstros marinhos. Em Isaías 27:1 YHWH castiga Livyatan, ou Leviatã, a serpente tortuosa, e mata o tannin que está no mar. No Salmo 74:13 Deus quebra as cabeças dos taninim sobre as águas. Em Isaías 51:9 o braço de YHWH fere Rahav, ou Raabe, e traspassa o tannin. Em todos esses textos a palavra carrega o peso do caos, do que se levanta contra a ordem que Deus estabeleceu.
Os tradutores da Septuaginta perceberam isso. No Salmo 91:13 eles escreveram drakon, dragão. A Vulgata seguiu pelo mesmo caminho, e foi assim que o "basilisco" e o "dragão" entraram na tradição cristã antiga, nas traduções que muita gente ainda lê.
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| Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Então, ficando só no texto: o versículo 13 não fala de alguém que desvia das feras. Fala de alguém que as vence. E a última delas tem nome de dragão.
O salmo em volta do versículo
Vale lembrar onde o versículo está. O salmo abre com alguém que habita no esconderijo de Elyon, ou Altíssimo, e descansa à sombra de Shaddai, ou Todo-Poderoso. Esse alguém diz a YHWH que ele é refúgio e fortaleza. Depois vêm as ameaças: o laço do passarinheiro, a peste, o terror da noite, a seta que voa de dia, a destruição do meio-dia. Os versículos 11 e 12 prometem os anjos. O 13 promete a vitória. E do 14 ao 16 quem fala é o próprio Deus: porque ele me ama, eu o livrarei.
Repare na ordem, porque ela vai importar mais adiante. Primeiro a habitação, depois a proteção, depois a vitória.
Segunda prateleira: como o salmo era lido antes de Yeshua
Aqui entramos no terreno da interpretação. Mas é uma interpretação antiga e bem documentada, e ajuda a entender o que acontece nos evangelhos.
Entre os manuscritos da caverna 11 de Qumran existe um rolo pequeno que os estudiosos chamam de 11Q11, ou Salmos Apócrifos. Ele reúne cânticos contra espíritos malignos. Alguns não estão na nossa Bíblia, e alguns mencionam o nome de Shelomo, ou Salomão, que a tradição judaica ligava ao poder sobre os demônios. O rolo termina com o Salmo 91. Ou seja: antes de Yeshua nascer, havia judeus recitando esse salmo como proteção contra forças espirituais.
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| Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification) |
O Targum dos Salmos, a tradução aramaica usada na sinagoga, vai na mesma direção. Nos versículos 5 e 6, onde o hebraico fala do terror da noite e da destruição do meio-dia, o Targum fala de demônios. Aqui é preciso cuidado com as datas: o Targum dos Salmos, na forma que temos, é bem posterior ao primeiro século. Ele não prova o que um judeu da Galileia pensava. Mostra uma tradição de leitura que, somada a Qumran, aponta para o mesmo lugar.
Há ainda o Testamento de Levi, parte dos Testamentos dos Doze Patriarcas. No capítulo 18 ele fala de um sacerdote novo que Deus levantaria, e diz que esse sacerdote daria a seus filhos poder para pisar sobre os espíritos maus. O problema é que esse capítulo é justamente um dos trechos em que se discute a mão de copistas cristãos. Não dá para usá-lo como testemunha limpa. Dá para dizer que a linguagem de "pisar" já estava sendo aplicada a espíritos em textos judaicos daquele ambiente.
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| Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification) |
Juntando as três peças, com as ressalvas de cada uma: o Salmo 91 era lido, pelo menos por uma parte do judaísmo antigo, como um salmo de proteção contra o mundo espiritual hostil. Isso não está escrito no salmo. Mas é assim que ele era usado.
O versículo que ficou de fora
Com isso em mente, a cena da tentação ganha outra cor. Em Mateus 4 e Lucas 4, Satanás leva Yeshua ao pináculo do templo e diz: se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo. E cita o Salmo 91, os versículos 11 e 12. Os anjos, as mãos, a pedra.
E para aí.
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| Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification) |
E Yeshua não respondeu com o versículo 13. Respondeu com Deuteronômio 6:16: não tentarás YHWH teu Deus.
Isso também é uma lição. A promessa do salmo não é um cheque para ser cobrado de Deus depois de um salto irresponsável.
Onde o versículo 13 aparece de verdade
O lugar em que a B'rit Hadashá, ou Novo Testamento, retoma o versículo 13 é Lucas 10. Yeshua envia setenta discípulos (alguns manuscritos trazem setenta e dois) às cidades por onde ia passar. Eles voltam alegres e contam que até os demônios se sujeitavam a eles pelo nome dele. A resposta de Yeshua:
Fonte: (Acervo Pessoal/ Fruit for Sanctification)
Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago. Eis que vos dei autoridade para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo, e nada vos fará dano algum. (Lucas 10:18-19)
Pisar serpentes. A ligação com o Salmo 91:13 é reconhecida pelos comentaristas há muito tempo, e as referências cruzadas das Bíblias de estudo costumam apontá-la. O detalhe importante é que Yeshua não aplica o versículo a cobras de estrada. Ele o aplica ao "poder do inimigo", e o contexto é a sujeição dos demônios e a queda de Satanás.
Por que setenta?
Esta parte é proposta, não texto, e é a proposta que mais me convence. Já tratei do pano de fundo dela em outros artigos, sobre os benei Elohim e o conselho divino e sobre Mateus 16 e o monte Hermom.
Dr Michael Heiser, em O Reino Invisível, chama atenção para o número da missão. Gênesis 10, a Tabela das Nações, lista setenta nações depois do dilúvio. E Deuteronômio 32:8-9, no texto preservado em Qumran e refletido na Septuaginta, diz que o Altíssimo dividiu as nações segundo o número dos benei Elohim, ou filhos de Deus, e que a porção de YHWH foi o seu povo. Depois de Babel, as nações ficaram sob outros seres espirituais, e Israel ficou com YHWH.
Na leitura de Heiser, quando Yeshua envia setenta, o número não é acaso. É um sinal de que chegou a hora de reivindicar as nações entregues. E a reação dele ao relatório dos discípulos, Satanás caindo e os discípulos recebendo autoridade para pisar serpentes, confirma que o que está em jogo é a derrota desses poderes. Se essa leitura estiver certa, Lucas 10 não é só um episódio de missão bem-sucedida. É uma prévia da conquista das nações.
Uma ressalva justa: a variante setenta ou setenta e dois complica um pouco o argumento, porque a Septuaginta de Gênesis 10 também chega a setenta e dois nomes. Curiosamente, a ambiguidade corre nas duas listas, o que alguns estudiosos acham que reforça a ligação em vez de enfraquecê-la. Mas é um ponto discutido.
Do Éden a Roma
A imagem de pisar a serpente começa bem antes do Salmo 91. Em Gênesis 3:15 Deus diz à serpente que a descendência da mulher lhe ferirá a cabeça. O verbo ali é shuf, não ramas, então não há uma ligação de vocabulário para defender. A ligação é de cena: a serpente vencida debaixo do pé. Já escrevi aqui sobre os serafins e a serpente do Éden, e o fio é o mesmo.
E o fio vai até Romanos 16:20, onde Shaul, ou Paulo, escreve: o Deus da paz em breve esmagará Satanás debaixo dos vossos pés. Não debaixo dos pés de Yeshua apenas, mas dos vossos. A vitória é dele, e ele a divide com o seu povo, exatamente como fez com os setenta. Em Apocalipse 12 e 20 o grande dragão, a antiga serpente, é lançado fora e preso.
O que fazer com esse versículo
Primeiro, não repetir o erro do pináculo. O Salmo 91 não é garantia de que nada de ruim vai acontecer a quem crê. Gente fiel adoece, sofre, e muitos morreram pela fé. Yeshua recusou o salto, e a gente também recusa.
Segundo, prestar atenção na ordem do salmo. Quem pisa o leão e o dragão é quem habita no esconderijo do Altíssimo. A autoridade vem da habitação, não de uma fórmula. Os setenta não voltaram falando da própria força. Voltaram dizendo "pelo teu nome". E Yeshua ainda completou: não vos alegreis porque os espíritos se vos sujeitam, alegrai-vos porque o vosso nome está escrito nos céus.
Terceiro, descansar. O leão ainda ruge, Pedro diz isso com todas as letras. A serpente ainda engana. Mas a cabeça dela já foi ferida e o dia de ser esmagada debaixo dos pés do povo de Deus tem data marcada.
Na próxima vez que você ler o Salmo 91, não pare no versículo 12. Leia o 13. É a parte que o inimigo preferiu deixar de fora.
Este artigo acompanha o estudo em vídeo do canal Fruto para Santificação sobre o Salmo 91:13






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